Estádios e enganos
De resto, nada mais, porque diziam que a culpa não havia sido da jornalista, mas sim do entrevistado. No meio disto tudo, ficou a faltar a verdade, que não teve direito a tanto espaço como aquele artigo.
Para ajudar a esclarecer os leitores devo mencionar o excelentíssimo contributo do consócio Fernando Nunes, sócio de longa data e belenense de gema, conhecedor de Belém como poucos. Mais me contou do que aqui hoje relato, mas por hoje limito-me ao tal artigo.
Agradeço também ao consócio e "co-bloguista" Rui Vasco, por na ocasião me ter passado o artigo e demonstrado o maior interesse e empenho nesta "causa" do Estádio. Aqui vai:
No passado dia 14 de Janeiro do corrente ano foi publicado no jornal “A Bola” um artigo com o seguinte título: “Onde hoje joga o Belenenses já jogou o Casa Pia, expropriado pelo Estado Novo”. No corpo do artigo pode-se ler ainda que “[A ditadura] Com o propósito de necessitar da área do seu campo [do Casa Pia] para aí erguer a megalómana Exposição ‘O Mundo Português’, tirou-lhe o espaço, terreno onde hoje se encontra o Estádio do Restelo.(…) O curioso é que a ditadura nunca chegou mesmo a fazer uso dos terrenos para a referida exposição ou mesmo para qualquer intento.”
O artigo é rematado com a insinuação de que, após a “venda” compulsiva do terreno, terá sido o Belenenses a ser beneficiado, referindo um “natural contentamento do Clube da Cruz de Cristo, feliz por lhe ser concedido o campo que ganhara a denominação de Estádio Municipal Américo Tomás.”
Por agora bastará enumerar alguns dos factos históricos, comprovados e documentados que terão sido ignorados e/ou distorcidos.
Começando pelo princípio. Em 1924 a Associação de Futebol de Lisboa determinou que os clubes com campos próprios não os podiam ceder a outros clubes para efeitos de campeonatos. O Belenenses e o Casa Pia ficaram assim em risco de ficar excluídos das competições por falta de campo regulamentar. Para resolver o problema de forma temporária o Belenenses alugou o campo do Lumiar, enquanto estudava a solução definitiva, que viria a ser o Campo das Salésias. O Casa Pia, por sua vez, inaugurou em 21 de Dezembro (ainda em 1924) o “Campo do Restelo”, sendo convidado para a inauguração o “vizinho” Belenenses. O resultado final foi um empate a duas bolas.
Este campo situava-se para ocidente, em terrenos onde hoje se encontram as traseiras do Planetário Gulbenkian, mais propriamente a Rua Dom Francisco de Almeida e a Praça de Malaca. Nem um metro desse terreno coincide com o actual espaço do Complexo Desportivo do Restelo.
Quanto ao Belenenses, só em 1926 conseguiu a cedência (por 99 anos!) de um terreno na cerca do antigo Convento das Salésias, então ocupado pelo Asilo Nun’Álvares [na altura sem vínculo à Casa Pia]. As obras no novo campo iniciaram-se em 1927, sendo o campo oficialmente inaugurado em 1928. O Belenenses ficou obrigado a pagar ao Asilo 6% da receita bruta de todos os eventos realizados.
Em 1937 e no lugar do campo das Salésias o Belenenses inaugurou o Estádio José Manuel Soares. Concluídas as obras de remodelação, o nosso estádio passou a ser o melhor do país (foi o 1º campo relvado!). Tal circunstância fez com que fosse o recinto escolhido para vários desafios internacionais da Selecção, bem como várias finais da Taça de Portugal. De qualquer forma nos planos do regime encontrava-se já a construção de um Estádio “Nacional” para o efeito.
A página do Jornal A Bola, com uma fotografia das obras do Restelo com a seguinte legenda:
"Este o terreno que o Casa Pia perdeu em 1940, local onde hoje vive o azul Restelo".
Apenas acertaram na última parte, pois o local é de facto o do Restelo, só que antes destas obras e já desde o séc. XIX (pelo menos) nunca foi mais que uma pedreira e fornos de cal, propriedade da Casa Pia (e antes, da Igreja), não do Casa Pia A.C.
Em 1940 foi inaugurada a Exposição do Mundo Português, sendo que no espaço do “Campo do Restelo” (pertencente à Casa Pia e não ao Casa Pia AC, note-se) foi instalado um parque de diversões. E a casa Pia efectivamente vendeu esse terreno, embora por um valor pouco generoso, de facto. Após o fim da Exposição e durante algum tempo o terreno manteve-se sem utilização, até sofrer a intervenção urbanística (anos 50/60) que lhe conferiu a forma actual.
De assinalar que o Belenenses ofereceu o seu Estádio ao Casa Pia para que pudesse continuar a jogar, algo que os casapianos desse tempo não esqueceriam (exemplo foi a cedência do Feliciano, como mencionámos há dias). Pouco tempo depois o Casa Pia faria do Belenenses seu Sócio Honorário.
Em 10 de Junho de 1944, então chamado “Dia da Raça”, foi finalmente inaugurado o Estádio Nacional. No decurso das grandiosas celebrações foi disputado um... Benfica-Sporting.
Em 1947, logo após a conquista do Campeonato Nacional da 1ª Divisão pelo Belenenses (1945/46), a Câmara Municipal de Lisboa informou o nosso Clube de que teria de abandonar o seu estádio, pois os terrenos em causa seriam destinados à construção (de um bairro social, diziam alguns). Só após vários anos é que os Belenenses (onde se destacou Acácio Rosa) conseguiram uma saída. Tinham sido propostos locais como Benfica ou Monsanto. Os dirigentes insistiram para que o Clube não saísse da sua freguesia. Por fim o Belenenses teve de aceitar o que a Câmara dizia ser o melhor: uma pedreira. Essa pedreira era bem antiga, constando já em mapas da freguesia do Séc. XIX. Chegou a fazer parte da cerca do Mosteiro (e portanto depois da Casa Pia, que beneficiou da anterior expropriação do Mosteiro à Ordem dos Jerónimos), servindo para abastecer a construção com pedra e cal. Dessa forma comprova-se que o Belenenses nunca “recebeu” o antigo campo do Casa Pia nem nunca recebeu sequer um metro desses terrenos. Recebeu uma pedreira já em desuso (até mesmo perigosa), cujo aterro esgotou todos os fundos disponíveis para a construção do estádio.
A 23 de Setembro de 1956 foi o Presidente Craveiro Lopes (e não Américo Tomás) a inaugurar o Estádio do Restelo (não era Municipal, pois o município nada havia feito do que entregar uma pedreira inurbanizável). Venceu a proposta "Restelo" em vez de "Estádio de Belém"...
Em 1961 o Belenenses sofreu novo revés - qual perseguição de décadas! O peso dos juros das "generosas" dívidas era cada vez maior. O Clube não podia hipotecar o Estádio, pois não era sua propriedade. Numa primeira instância a Câmara chegou a pôr os troféus e os equipamentos do Clube na rua, encaixotados! Era esta a tão propalada “promiscuidade” entre o Belenenses e o Estado Novo - pelo contrário tão zeloso com outros.
Em 27/6/1961 foi consumado o fracasso e o Estádio passou a ser propriedade da Câmara, que ficou como responsável pela conservação do mesmo. E os funcionários do Clube, passaram a funcionários da Câmara! Aí sim, passou a Estádio Municipal do Restelo (não Américo Tomás)...
Deu-se início a um dos mais obscuros períodos da vida do Belenenses, senão o mais conturbado de todos, pois estava a sua sobrevivência em jogo. O Estádio do Belenenses, para cúmulo, ficava à disposição de quem o quisesse (de outros emblemas).
Foram muitos os que pugnaram pela reposição da dignidade e do respeito pelo Belenenses, sobretudo após o vergonhoso episódio dos troféus postos na rua. O jornalista Homero Serpa (do jornal “A Bola”) foi uma das figuras mais emblemáticas desta luta, publicando inúmeros artigos de indignação e protesto. O emblemático dirigente (e maior entre os maiores Belenenses) Acácio Rosa lutou também o que podia (e o que não podia) desde o seu lugar na Direcção do Clube.
Todas estas démarches logo constituíram perante a PIDE mais um incómodo foco de agitação, valendo aos protagonistas a “simpática” vigilância da Polícia Política. Uma vez mais, o regime a “proteger” o Belenenses.
Curiosamente era então Presidente da República o Almirante Américo Thomaz (desde 1958), assumido adepto do Belenenses. Como conciliar então este facto – o pior período da história do Belenenses - com o “mito” enganoso que diz que o Belenenses deve a sua grandeza ao fascismo através do apoio (financeiro, até dizem alguns) do Almirante Thomaz? A resposta é simples. Primeiro de mais, qualquer um de nós - minimamente atento ao curso da História - saberá quais eram os poderes do Presidente da República durante a Ditadura: nenhuns. Para mais Salazar ainda era Presidente do Conselho e o único detentor do poder em Portugal. Se alguém tinha de responder por algo, teria de ser a Salazar. Perante os factos e a animosidade da PIDE para com os dirigentes do Belenenses é fácil ver quem patrocinava o quê - e quem.
Justiça seja feita porém a Américo Thomaz, que efectivamente apoiou a causa do Estádio dentro das suas possibilidades. Não o fez como Presidente, não o fez como figura da ditadura (ainda que secundária). Fê-lo como sócio de longa data, antigo dirigente e mais que tudo, como amante do Clube e do desporto. Aliás como dirigente bem sabia que as manifestações políticas estavam vedadas pelos estatutos do Clube.
Fica portanto a gratidão, como dever da mais básica educação e civismo, valores entre os quais a política não se intromete. Muito menos quando esta até era dominada exclusivamente por outros.
A Assembleia teve lugar posteriormente Pavilhão dos Desportos, cujo acontecimento ficou histórico para o clube. Nessa altura, todas as forças vivas do clube se agitaram e como é óbvio o Almirante Américo Tomas, não só, como grande Belenenses desde os seus tempos de Marinha ou ainda como antigo Presidente do Clube, não ficou indiferente a tão grandiosa adesão, não só dos belenenses como de todos os desportistas deste Pais, no sentido de ser feita justiça e devolvido ao Belém o seu Estádio.
Então e em reconhecimento pelo envolvimento do Almirante, o complexo passou a chamar-se Estádio Almirante Américo Tomás. É bom não esquecer que nesta altura, o complexo foi devolvido ao Belém, nas mesmas condições anteriormente acordadas."
Em 1969, por ocasião das Bodas de Ouro do Belenenses e 8 anos após a expropriação do Restelo, o Clube conseguiu finalmente um acordo com a Câmara Municipal de Lisboa. Em reunião da Assembleia Municipal de 18 de Setembro foi decidida a entrega plena do Estádio por um período de 25 anos, renovável.
Para conseguir a devolução foi importantíssima uma campanha de angariação de assinaturas entre os adeptos azuis, campanha essa que registou um enorme sucesso no Brasil, junto dos emigrantes aí radicados. Não foram um, nem dois... nem o Estado.
Em 11 de Janeiro de 1970 deu-se a “estréia” da renovada posse do Estádio (ainda que permanecesse património da Câmara). Foi disputada no Restelo a Taça “Américo Thomaz” e a Junta Directiva (e não o próprio), com o apoio da Assembleia Geral, decidiu rebaptizar o Estádio também com o seu nome, em reconhecimento da dedicação ao Clube. O Belenenses conquistou o troféu vencendo o convidado Sporting por 3-2.
O Estádio do Restelo, que na altura ainda ostentava – como referimos acima – o nome do Almirante Américo Thomaz, foi depois rebaptizado em Maio de 1974 como “Estádio da Liberdade”. Uma decisão sintomática da espécie de “liberdade” preconizada por uma minoria, pois para tal mal foram consultados os sócios, como normalmente o eram (e são) desde a fundação do Clube (democraticamente, aqui sim). Apenas alguns queriam "brilhar" perante os novos mandantes. Brevemente após, porém, foi adoptado um nome do agrado de todos, desta vez sem conotações “especiais”: Estádio do Restelo! Quiçá haveriam mais alternativas, pois outras grandes figuras poderiam dar nome ao Estádio sem azo a contestação, como Pepe (cujo estádio das Salésias desapareceu), Artur José Pereira, Acácio Rosa ou Sebastião Lucas da Fonseca (Matateu).
Perante esta problemática, que envolveu também posições públicas de membros do Clube no sentido de renegar e denegrir o Belenensismo do Almirante Américo Thomaz (concerteza para agradar aos novos líderes), foi Acácio Rosa que esclareceu categoricamente o assunto – ele que tinha “ficha” na PIDE! - em artigo publicado no jornal “A Bola” (de 8 de Maio de 1974):
"Os problemas do Belenenses debatem-se nas suas Assembleias Gerais, onde livre e democraticamente se resolvem as questões. Está proibido pelos estatutos do Clube toda e qualquer manifestação política, quer aos seus dirigentes, quer aos seus associados. O sócio que a Assembleia Geral e por unamimidade distiguira como seu patrono no Estádio é sócio contribuinte desde 1924, seu sócio de mérito, seu Sócio Honorário, seu antigo Presidente Honorário, possuidor do mais alto galardão do Clube – Medalha de Ouro Dedicação, adquirida por subscrição de 1$00 entre a sua massa associativa."
Reconhecido, o Almirante agradeceu publicamente o gesto, reafirmando a sua paixão pelo Belenenses mas esclarecendo que não pedira que dessem o seu nome ao Estádio, e inclusivé achava apropriado o regresso ao seu nome original ou até [como aqui sugerimos] a atribuição do nome de grandes figuras do Clube, destacando o malogrado Pepe (que teve o privilégio de ver jogar).
Posteriormente, em Assembleia Geral do Clube (ocorrida a 6 de Dezembro de 1974) foi aprovada uma proposta da Direcção – então presidida pelo Major Baptista da Silva – com a aclamação dos sócios para repôr o nome original do Estádio: do Restelo, tal como é hoje.
Para concluir e a título de curiosidade, foi precisamente o expropriado espaço das saudosas Salésias azuis o único a não ter tido outra utilização... até hoje! Curiosamente também e sem que tal fosse muito claro, o terreno das Salésias é hoje propriedade... da Casa Pia. E esta, hein?


12:00 da manhã


































