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Eram assim os Belenenses!



Para hoje reservei alguns excertos que descrevem uma bela tradição - já perdida - bem como a peculiar vivência dos adeptos do Belenenses de antigamente. Numa altura em que se sente algum (senão bastante) optimismo quanto ao estado da equipa de futebol e surgem apelos ao apoio do público, achei por bem relembrar tempos em que a paixão Belenense se vivia como um grande amor à terra e profundíssimos laços de cumplicidade entre os jogadores e os "adeptos" (como veremos, diria que são eram mais que "adeptos"). Nos tempos de hoje e nos grandes clubes profissionais já não é possível ter uma equipa em que jogadores e adeptos são vizinhos, mas tal não invalida que exista uma só alma. Aliás o Belenenses fez-se grande à escala nacional por múltiplos afectos e múltiplas e novas cumplicidades, mas nunca esquecendo o seu querido berço, ainda por cima local singular da história e beleza monumental do nosso país. Isso não se deve confundir com bairrismo, nem é o Belenenses um Clube de bairro há já muito tempo.
Acaso seremos menos portugueses por reconhecermos - como é devido - Guimarães como o "berço da nacionalidade"? Não faz sentido. Da minha parte, bem-hajam os vimaranenses que ajudaram à Fundação, como aos Belenenses que fundaram o meu Clube (esclareço que não nasci nem em Guimarães nem em Belém!).
Começo por um delicioso artigo do jornal “Eco dos Sports” datado de 22 de Maio de 1927, citado por Acácio Rosa nos seus livros e que aqui reproduzo na íntegra (tal como também já o havia publicado na minha página não-oficial):

“Já no referimos aos pombos que a rapaziada de Belém larga em pleno azul, após as suas vitórias. Hoje, fazemos mais. Apresentamos o pitoresco duma fotografia em que se vê o popular Azevedo, findo o jogo com o Benfica, abrir as mãos e atirar para a imensidade a boa nova dum pombo correio, que levava o amável segredo da vitória.
Bilhete curto, de caligrafia comovida e nervosa, ele aí vai pelos ares fora, sobre o coração da ave – pronto a tornar-se em foguetes e vivas…
Ganhámos! Uma palavra apenas, a saber a lágrimas e a risos. A gente de Belém, à maneira antiga e desprezando os telefones – contenta-se assim, lá de longe, a olhar o céu atenciosamente…
- Lá vem! Lá vem!
Mas não é ainda. As desilusões sucedem-se. Às vezes são gaivotas vadias que vêm em raids por terra e iludem os que esperam… Pombos correios, isso sim…
Entardecera já. Ficara combinado largarem um pombo ao primeiro goal e à hora de acabarem os noventa minutos – ainda o céu estava virgem das asas brancas da boa nova.
Belém desesperava. O desafio estava dado como perdido – e todos se olhavam com tristeza. E quando finalmente, com sua fidelidade, generosa – o pombo surgiu, ninguém queria acreditar…
- Ganhámos! Ganhámos!
São assim os entusiastas do grupo da praia. Querem ao seu club, como se quer a uma pessoa de família. Amam-no e comovem-se, com os seus triunfos. Choram e afligem-se com as suas derrotas.
Belém é assim um club - que vive das almas.

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O artigo original, devidamente ilustrado

Eduardo de Azevedo, grande pilar do grupo, a alma esforçada do team – é como todos, um entusiasta, um crente. Entrega-se corajosamente – e a sua vontade pode mais que tudo o resto. Quando ele joga só uma coisa vê e deseja – a equipe azul. Enchê-la de glória e de triunfo. Pode estar arrasado, doente, fisicamente combalido, mas entra em campo e transforma-se. O pombo correio que parte – é a sua fé realizada, cortando o céu.
Explicam-se assim os seus triunfos – a fé já não abala montanhas mas ainda mete bolas nas redes adversárias. Pépe é na linha avançada – o resto da vontade de Azevedo. Pépe realiza o sonho. Azevedo encarrega-se a todo o custo de o manter.
A vida rola indiferente. A cidade bate-se nos seus conflitos íntimos. Cada casa é uma ambição. Por toda a parte lutas desiguais, sonhos, quimeras – e indiferença. Uns dormitam, as mulheres à janela olham a vida, com placidez. Os gaiatos brincam nas ruas. Toda a aparência é calma. Mas no azul a asa branca esconde o frémito, o esforço enorme e lá vai velozmente a transportar a notícia ansiosamente esperada.
- Ganhámos! Ganhámos!
Quando Belém acaba um jogo, há sempre lágrimas.
É o club popular por excelência – o Belenenses. O seu entusiasmo sincero e comovedor cheio de ingenuidade talvez – é assim, enorme como um gigante de alma primitiva…
Sorri quando vence, define-se por expressões plebeias… Larga aos céus e com entusiasmo, pombos correios quando vence – como se quisesse mandar a notícia ao mundo inteiro e confia sempre na vitória nesta frase risonha e popular – isto está como há-de ir…
São assim os Belenenses!

Em seguida outro interessante texto publicado no jornal "A Bola" pelo nosso grande consócio Homero Serpa, exactamente sobre a mesma tradição e o mesmo pulsar do coração "azul":

“Nos anos vinte o telefone era um objecto raro. Morava em poucas residências e era sinal de bom nível de vida. Os trabalhadores só sabiam que ele existia. Não sei se no Largo Figueiredo, geograficamente incluído na secular Alcolena, havia alguém com aquele objecto mágico. O que é certo é que quando o Belenenses ia jogar fora de portas, nem que fosse a Setúbal, os adeptos juntavam-se à porta do defesa Azevedo, ali morador, à espera dos resultados.
Aos domingos, depois das cinco, lá estavam eles, formando um grupo de expectantes cidadãos de cruz ao peito, aguardando as novidades. Por fim, lá chegava o mensageiro alado, um pombo-correio que o Pera não se esquecia de soltar com o desfecho do jogo encerrado na anilha. Era a columbofilia em pacífica utilidade. Uma utilidade simpática que ultrapassava a utilização na guerra em complemento das rádios que os exércitos cedo começaram a usar como instrumento de comunicação.”

O jogo com o Benfica a que se refere o jornal "Eco dos Sports" creio que tenha sido o encontro da penúltima jornada do Campeonato de Portugal de 1926-27 (disputado a 15 de Maio de 1927), em que o Belenenses derrotou os encarnados no "Stadium do Lumiar" por 2-0. No entanto e sendo algo invulgar para a época, o empate a zero no fim do tempo regulamentar levou a que o resultado só se decidisse após prolongamento (120 minutos de jogo). O Belenenses marcou um golo em cada parte do prolongamento. Incrível e certamente extasiante!
No dia 12 de Junho de 1927, portanto já após a publicação do artigo, o Belenenses conquistaria o seu primeiro Campeonato de Portugal. Aqueles jogadores e aquele povo de Belém conseguiram ser Campeões!

A respeito desse primeiro campeonato ganho, recomendo vivamente a compra do livro "Belenenses - O Primeiro Campeonato de Portugal (1926-27)", publicação do Clube (já de 2002) e da autoria do nosso actual administrador da SAD, Barros Rodrigues. Bem haja!
É riquíssimo em informação e imagens, as quais evito reproduzir aqui, para que todos possam satisfazer a sua curiosidade... comprando o livro!

Para finalizar, que bom seria recuperar semelhante empatia entre os atletas e os adeptos. Já não somos vizinhos e os atletas já não o são propriamente por amor à camisola, mas acredito que a mística pode e deve continuar. Quanto mais não seja pela partilha... da alegria das vitórias, mas também da tristeza das derrotas, sempre de cabeça erguida. Eles com suor, nós com aplausos. Querem ser os nossos novos heróis? Façam lançar um pombo-correio, ainda que imaginário. Para que possamos gritar mais e mais vezes: "Ganhámos! Ganhámos!"



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