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Cromos



Em miúdo sempre fui um grande entusiasta das colecções de cromos. Incluindo - claro está - do futebol. Como sou de idade que ainda não se pode considerar minimamente "vetusta", sempre tive a idéia de que as minhas cadernetas eram bastante "actuais". No entanto já se passaram uns anitos... e embora nesse espólio não possa orgulhar-me de ter cromos de jogadores como Matateu, Vicente, Di Pace, Godinho, Mourinho ou um Quaresma, os que tenho já podem ser considerados também como "históricos"... embora nem sempre de fases brilhantes da história do Belenenses... Mas já lá vou.


Temos "cromo"!

Para começar gostava de referir algo que vi no outro dia e que me leva escrever este artigo, embora já tenha estado para referir o assunto "colecções" por várias vezes. Ora estava eu numa banca de revistas e jornais quando, por entre diversos fascículos coleccionáveis e afins (que hoje há de todos os tipos e feitios), vislumbrei um azul intenso com uma Cruz de Cristo estampada. "Olá", pensei eu. Resolvi levantar a "ponta do véu" e deparei-me com isto:


Trata-se da que é porventura (e actualmente) a mais afamada colecção de cromos do nosso futebol, publicada pela italiana Panini. Como primeira reacção, creio só ser possível a satisfação. Ali, ao lado dos três estarolas, alguém - e bem - resolveu escolher o outro grande (e único Enorme), o nosso Belenenses. Porque seria? Por haver dedinho de algum "pastel"? Duvido... e passo a explicar, mesmo tendo em mente que na época anterior ficámos em 9º lugar. Como o meu sobrinho é quem agora "domina" as cadernetas, fui ver qual era a capa em 2004/05... e vi que lá estavam os 3 e o Boavista (com o João Pinto), que na época anterior tinha sido 8º (e nós 15º). Ou seja, parece-me que se trata de uma atribuição efectiva e deliberada do estatuto de "grande" (para além dos 3), a que talvez não sejam alheias as expectativas criadas na imprensa em relação à nossa equipa. E com muito bom gosto!
Aproveitei também para constatar que a Panini adoptou essa idéia (de pôr os 3 mais um) precisamente para 2004/05, já que na época de 2003/04 a capa tinha uma foto bastante "neutral", de um jogador do Moreirense a disputar uma bola com um jogador do Leiria. Antes dessa (de 2003 para trás) as capas não fugiam à triste regra de só lá ter jogadores dos 3, regra essa infeliz e continuamente adoptada por outras instituições e organizações até de maior reputação e responsabilidade (começando pelos jornais e passando por empresas como a PT, com os seus repulsivos anúncios a 3).

Ainda assim aquela capa pode gerar alguma "celeuma" nas hostes, pois se repararem, o nosso jogador contemplado foi o Paulo Sérgio. "Pois, tinham que ir buscar um dos 3!", pensarão alguns, acrescentando mais um ponto à subalternização e descaracterização do Belenenses por via dos empréstimos. Também eu acharia muito mais adequado se lá estivesse o Marco Aurélio, indubitavelmente o jogador mais carismático e emblemático do Belenenses neste momento. No entanto e mesmo sem conhecer o autor de lado algum, sem muita dificuldade consigo encontrar razões que justifiquem a escolha. Reparem que os eleitos dos 4 clubes são todos jogadores nacionais e relativamente jovens, com preferência pelos que atacam e/ou marcam golos. Ficariam assim de fora as referências do meio-campo defensivo. E porque não o Silas ou o Meyong? Parece-me que a montagem da capa terá sido feita com bastante antecedência, tanto mais que o equipamento ainda é o da época anterior (com o "ovo estrelado"). Sendo assim e entre a saída do Antchouet e a confirmação dos "novos", resolveram eles e de forma eleger o Paulo Sérgio. E é nosso, de facto!
Mas mais que tudo isso, creio que a questão de ser o jogador A ou B é irrelevante. Aliás acho que a miudagem, que é o principal alvo, não estará ou corrente ou se importa com essa questão, tanto mais que a informação (de que se trata de um jogador emprestado pelo Sporting) nem é incluída nos dados do jogador publicados.

Em suma e tudo ponderado, creio que muito bem fez a Panini e merece parabéns (ao inverso dos muitos que merecem condenação). Esperemos que desta vez seja com carácter premonitório, significando que o Belenenses irá terminar entre os 4 primeiros (entre os 4, não o 4º, note-se).

Posto isto, resta reflectir sobre a verdadeira importância ou impacto da coisa. Se fosse há uns anos atrás, tenho a certeza de que seria assunto recorrente no recreio da escola. Hoje em dia imagino que já não seja tanto.
Há 20 ou 30 anos atrás não haviam ou eram raríssimas as transmissões de jogos pela TV, para além de serem a preto e branco (só em 1980 se iniciaram as transmissões a cores, de que bem me lembro como se fosse hoje); os jornais eram bissemanais e não diários, para além de serem também raras as imagens a cores; e não havia, é claro, Internet (nem sequer computadores "caseiros"!). Ou seja, para quem quisesse ter à mão todas as equipas e conhecer de cor (e a cores) todos os jogadores, as cadernetas eram "bíblias".
No entanto o "coleccionismo" mantém ainda quase todos ou muitos dos seus encantos. Quer lhes chamem agora "trading cards" ou lá o que seja, a tara pelas figuras dos craques rivaliza agora com os mais variados e sofisticados bonecos de animação, alguns dos quais meros pretextos para toda uma indústria... de coleccionismo.
Prova é que as cadernetas ainda se fazem e vendem (e o meu sobrinho não perde uma).


Maldita caderneta

Em seguida gostaria de passar ao outro ponto relacionado, que demonstra, uma vez mais, a "força" que as cadernetas podiam ter na cabeça dos miúdos. O exemplo que trago hoje é a caderneta que mais me custou comprar e fazer em toda a minha infância e vida. De cada vez que olhava para o álbum, com os meus 9 anitos, sentia uma imensa tristeza. Chamava-se "Os Futebolistas - e os seus autógrafos" e era publicada por uma empresa que creio que já não existe, a "F. Más, Lda." (faziam colecções giríssimas, creio que haverá pouca gente da minha idade que não tivesse uma). O problema é que o número em causa diz respeito à época de 1982/83... ou seja, a primeira vez na história em que quem procurasse o Belenenses na caderneta... não encontrava. Tínhamos descido de divisão pela primeira vez.
Então porque é que comprei a caderneta e boa parte dos cromos (não cheguei a completá-la nem fiz questão)? Ora, pelo hábito, pelo gosto de coleccionar e conhecer os jogadores (ainda que dos "outros") e porque... todos os outros também a tinham. Trocar, ter "cromos da bola" para a troca ainda era um belo passatempo. E mesmo assim, digo-vos, valeu a pena. Hoje folheio o álbum e encontro muitos jogadores que já tinham sido ou ainda viriam a ser do Belenenses, jogadores que entretanto vieram a ser treinadores, adjuntos, directores e até seleccionadores. Quais? Para já, aqui fica a fotografia de um jogador que infelizmente já nos deixa tantas e tantas saudades. Isto foi há 23 anos, por um lado já é algum tempo, mas nunca o suficiente para explicar porque é que ele - estupidamente - já não está entre nós:


O nosso José António ainda no Estoril (1982)

Na altura e com o Belenenses na segunda divisão, obviamente não mudei de clube. Dessa forma não "torcia" verdadeiramente por nenhuma das equipas que estavam naquela caderneta. Tinha no entanto alguma simpatia por um clube que equipava quase tal qual como nós. Ainda que apenas simbolicamente, para mim o melhor de todos naquela caderneta era... o Amora. É certo que os pontos de contacto entre o Belenenses e o Amora não se ficavam pelas cores do equipamento e similitude do emblema, mas na altura não fazia idéia de nada disso. Como não imaginava que pelo menos um dos seus jogadores de então viria a ser nosso - e já não era o primeiro. Aqui fica ele, aliás companheiro do anterior em posteriores jornadas de alegria:


O nosso Jaime ainda no Amora (1982)

Infelizmente para o Amora, calhou-lhe nessa época descer de divisão (lá fiquei sem clube de referência na caderneta seguinte).
Pese esta "simpatia" acessória e noutra perspectiva, o facto de o Amora estar na primeira e o Belenenses não estar... agudizava ainda mais a minha permanente melancolia. Mais - e sem desrespeito para com os emblemas em causa - não concebia como é que para além do Amora, clubes como o Portimonense, o Alcobaça (também azul, mas celeste), o Estoril (apesar de então ser mais forte do que é agora) ou um Rio Ave (também mais forte então, acreditem) estavam na 1ª Divisão e nós, um Grande, tínhamos ido parar à segunda.
O caso do Portimonense ainda era o mais "amargo" de todos, pois tinha sido o "refúgio" de Artur Jorge depois de "abandonar o barco" no Belenenses em 1981 (e assim descemos), sendo que a equipa de Portimão ficou também com jogadores nossos, no meio de uma debandada geral. Aliás não foi assunto nada pacífico e deu polémica quanto baste o chamado "caso Carlinhos" (não confundir com o caso Carlitos, sucedido quase 20 anos antes). Tratou-se de uma rocambolesca história, fazendo lembrar que "paulos madeiras" já houve muitos. O jogador em causa, o brasileiro Carlos Alberto de Almeida, estava integrado no nosso plantel que estagiava em S. Pedro de Moel até que um dia resolveu literalmente fugir para mais tarde aparecer com contrato assinado com o Portimonense. Ao que se soube o jogador havia fugido para a casa do ex-treinador Artur Jorge (então já treinador do Portimonense). Perante esta história de autêntica "bandidagem" foi então que se celebrou uma concorrida reunião da Assembleia Geral em que os sócios aprovaram não só o corte imediato de relações com o Portimonense mas também a proibição de Artur Jorge e Amílcar (também ex-jogador nosso no Portimonense) entrarem no Restelo e a expulsão do sócio Luís Horta. Era já então Presidente Mário Rosa Freire enquanto Alberto Regueira dirigia a A.G., secretariado por Ramos Lopes, Morais Cascalho e Humberto Capote. Nomes conhecidos, não é?

Com isto para sempre fiquei a odiar Artur Jorge, mesmo que não fosse só dele a culpa (ainda hoje não sei bem). Do que me lembro, como miúdo, ficou-me gravada a imagem de um cobarde trapaceiro. Mas já só me lembro pelos livros, por exemplo, que os responsáveis do Departamento de Futebol da altura também pediram a demissão (entre os quais o Dr. Jaime Monteiro). Fosse de quem fosse a culpa a equipa havia ficado totalmente à deriva, despojada de tantos bons jogadores que fomos desbaratando por pratos de lentilhas... e assim passou-se o primeiro grande desastre da nossa história desportiva, só equiparável a épocas que se seguiram. Ainda assim e quando regressámos, em 1984, no meio daquela inesquecível e grande festa, nunca imaginei (nem os restantes Belenenses, creio) que não era o fim de um pesadelo, que não era um ponto de viragem, que afinal era apenas o início da mais negra era do Belenenses, que considero perdurar até hoje (ainda que com excepções pelo meio, como as idas às competições europeias e a Taça de 1989).

Para terminar, aqui ficam os cromos (também de 1982) de dois actuais companheiros de banco de Carvalhal, ora vejam lá:



PS: Por razões óbvias e apesar de ter os cromos do Carlinhos e do Amílcar, não os publico... Outros cromos da mesma caderneta têm mais interesse, ficam para outro dia...



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