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Céu, Inferno(s), Purgatório(s)... e o Minho




Diz-se que era natural do Minho o incontestado pai do teatro português, Gil Vicente. Poderá ter sido também ele o ourives da célebre Custódia de Belém, esplêndida peça feita por ordem de D. Manuel com o primeiro ouro a chegar de Quíloa (2ª viagem de Vasco da Gama à Índia, arribando naturalmente ao Restelo). Mas de Minho a Belém já iremos adiante.
Entre outras obras, Gil Vicente celebrizou-se sobretudo pela sua Trilogia das Barcas, constituída por três Autos. O mais conhecido deles é o da Barca do Inferno, onde são igualmente três os destinos possíveis a quem deixou este mundo: o Céu (ou a Glória), o Purgatório e o Inferno. E tal como o Auto da Barca do Inferno “superiorizou-se” aos outros dois (da Glória e do Purgatório), também o próprio Inferno (por pessoa de um diabo) domina as tramas, sendo a barca deste a mais “concorrida”. O Céu fica reservado para muito poucos.
O azul do Belenenses não foi inspirado na cor do céu, mas antes na cor do mar, como evocação das Descobertas Marítimas (contemporâneas de Gil Vicente) que em Belém tiveram ponto de partida. Porém o azul do mar é por sua vez reflexo do céu, pelo menos quando livre de nuvens. De outra forma, quanto mais as ditas nuvens se adensam, mais fica este… cinzento. E mais perigosas as ondas… perigos de quem se aventura, podendo chegar ao Céu e à Glória, descer ao Inferno ou ficar no Purgatório à espera de melhor sentença.
De muitas glórias cobriu-se já o Belenenses, sobretudo nas suas primeiras décadas de vida, conseguindo pecúlio invejável. Nesses anos, culminando com a conquista do Campeonato Nacional em 1946, o azul era também o azul do céu… no “Céu” do futebol.
Em 1955 quis a sorte – talvez - negar novo sucesso ao Clube. Ao Belenenses do Rei Matateu fecharam as portas da glória, rude golpe que haveria de marcar o ânimo dos azuis, pensando então que já sofriam as agruras do “Purgatório”. Pelas décadas que se seguiram terão continuado a pensar o mesmo, salvando-se a conquista de uma Taça de Portugal (1960) e um honroso 2º lugar em 1972/73 (obra do “mago” Scopelli).
Em 1981/82 consumou-se finalmente a primeira descida ao “Inferno”, a 2ª Divisão. Durou esta estadia duas épocas, sendo que o “chumbo” e “repetição” trouxe o título, qual aluno que entrou nos “eixos”. Nunca mais, pensaram todos os azuis. O “Inferno”, nunca mais, deixem-nos no “Purgatório”.
Foi então que em 1988/89 o Belenenses conseguiu enfim mais uma parcela do “Paraíso” do futebol, levando para o Restelo a sua 3ª Taça de Portugal. Mas infelizmente, tal como subimos… assim caímos. De novo no “Inferno” na época de 1990/91, já o diabo se ria com tão ilustre reincidente, para desgosto dos Belenenses. Felizmente logo na época seguinte veio a subida de Divisão, embora sem título.
Sol de pouca dura, pois com muitos já conformados com a sina “infernal”, lá voltámos como danados e condenados em 1997/98 a um lugar que não era suposto ser o nosso… mas enfim, cada um tem o que merece, ensinou também a moral de Gil Vicente.
Curiosamente foi do minhoto Gil Vicente Futebol Clube que veio o condutor da terceira “fuga”, o treinador Vítor Oliveira (também ele minhoto?). Cumpriu com o que lhe pediam, pelo menos assim se pode dizer, até que um dia alguém deixou a porta aberta e lhe levaram o goleador Pataca a meio de uma época. Entre essas e outras, ficou o Belenenses numa nova espécie de “Purgatório”, sucedendo-se os “barqueiros” para chegar de novo ao “Céu”… em mar cinzento de tormentas…
E do Inferno só nos salvou o ano passado o também minhoto Moreirense (de Moreira de Cónegos), perante a inépcia e o desespero dos azuis com os seus “barqueiros”, impotentes para evitar o que só se evitou por intercessão de terceiros.
Chegados ao momento presente e embora tendo percorrido distintos percursos, estão nos destinos técnicos do futebol azul outros dois homens de origem minhota, Carlos Carvalhal e Rui Casaca. E pelo que temos visto ultimamente, os “ventos” do Minho continuam a favorecer o Belenenses. Se é desta que chegaremos ao “Céu”, não sabemos… Talvez baste a confiança, pois quando é merecida dá bons frutos. Talvez só falte… fé. Fé para aguentar as tormentas e tornar finalmente o “Purgatório” em local de curta passagem… para cima.

Apesar de tudo isto não conheço pessoalmente quaisquer minhotos adeptos do Belenenses, nem é esta região particularmente conhecida pela existência de grandes núcleos azuis (pelo menos da minha parte). Se calhar erradamente, direi eu, corrijam-me se assim não fôr (gostaria muito de estar errado!). Mas não tenho dúvidas que por estes dias desejo a maior sorte a certos minhotos… cada vez mais azuis!
E assim termino por aqui esta "viragem" a Norte num Canto ao Sul. Noutra ocasião gostaria de abordar não só o Norte ou o Sul mas toda a "demografia" dos adeptos do nosso Clube, que felizmente ainda ultrapassa muitas fronteiras, sejam elas bairristas, regionais e até internacionais...
Saudações Azuis




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