Preservar a memória
Em pleno período de comemorações de mais um aniversário do Belenenses, não raro é parar alguns minutos e pensar na história desta nossa gloriosa Camisola Azul de Cruz de Cristo ao peito: nas vitórias suadas e merecidas e nas derrotas que sucessivamente nos foram tornando mais fortes; nos feitos que apenas alguns atingem, nomes que - como dizia o poeta - se vão da lei da morte libertando. Se entendermos por bem acompanhar o divagar da memória e o reviver dos sentimentos através das páginas de um livro, facilmente constatamos que estão por levar à gráfica duas décadas de papel impresso, muito por "culpa" da morte desse nome grande da nossa história que foi Acácio Rosa, uma espécie de historiador oficial do clube cuja obra de compilação dos factos, dos nomes e dos números do Belém terminou, para sermos exigentes, em 23 de Setembro de 1984. Até aí, a história foi-nos contada com empenho, mestria e detalhe, dia a dia, assembleia a assembleia, jogo a jogo, ano a ano, em três volumes, divididos por duas partes - antes e depois de 1960. Após essa data, Acácio Rosa viu na verdade publicados mais dois volumes do seu incansável trabalho (em 1991 e 1994, por ocasião das Bodas de Diamante), mas que pecam por escassez de informação e pela ausência do detalhe que faz a diferença. Eram sobretudo resumos actualizados do que havia já sido escrito antes. Fora do clube, publicaram-se alguns tomos de respeito, mas também eles ou demasiado genéricos (como o trabalho de Rui Tovar nos "Grandes Clubes Portugueses de Futebol") ou enquadrados em contextos específicos (como por exemplo a "História do Futebol em Lisboa", de Marina Tavares Dias).
Dito de outro modo, é necessário que alguém ouse continuar o trabalho iniciado por Acácio Rosa, em nome da eternidade de uma memória colectiva com muita coisa para contar. Terá alguém tempo, engenho e arte para levar a cabo a tarefa? Nos últimos anos, fomos constatando que nomes como o de Ana Linheiro e Barros Rodrigues foram mostrando vontade de assegurar a informação regular, de percorrer o caminho, de deixar obra feita. Em tempos, num jantar recheado de belenensismo, ouvi um consócio manifestar a sua vontade de contribuir para que a obra não tenha acabado com o desaparecimento de Acácio Rosa. Desconheço entretanto se essas anotações já ganharam alguma forma. Mas é - como quase tudo na vida dos homens e das instituições - uma corrida contra o tempo, pelo que é de apelar a quantos tenham vontade de ajudar: que se apresentem, que se organizem! Para que todos, incluindo os que não partilham o nosso amor a esta causa, possam ver a continuidade de uma história maravilhosa a ganhar a forma de livro.
Até porque em grande medida, este trabalho metódico e disciplinado de "rato de biblioteca", umas vezes entusiasmante, outras tantas aborrecido, é a base para que os vindouros, não esquecendo o suporte papel, possam ver em CD-Rom e DVD o banco de jardim apadrinhado por Afonso de Albuquerque, os golos de Matateu, a inteligência de Vivente Lucas, a vida de Pepe, a magia de Mladenov e, é claro, as taças conquistadas por uma equipa fantástica que "em tempos idos" - dirão os nossos netos - "enchia de perfume os estádios de Portugal sob o comando de um então jovem treinador, de seu nome Carlos Carvalhal".


1:22 p.m.


































