Histórias de Belém V - Um Clube de Bairro do Tamanho do Mundo
Todos nós, belenenses, ouvimos já muitas vezes chamarem ao Belenenses “Clube de Bairro”. Numa dessas vezes, relativamente recente, a autoria da “boca” pertenceu a um conhecido político insular, que fez a afirmação inserida num contexto conflituoso (como é seu apanágio) e lançou-a em jeito de insulto (como também lhe é habitual), o que lhe valeu a ameaça de ver barradas as portas do Restelo na próxima vez que o seu clube (esse sim, sem qualquer expressão mundial, nem sequer nacional) viesse jogar a nossa casa. É claro que me senti ofendido na minha dignidade de belenense mas, tirando esse “incidente”, poucas terão sido as outras ocasiões em que essa expressão me ofendeu, antes pelo contrário!
Actualmente, nenhum de nós precisa de exemplos para nos convencerem (se é que algum de nós precisa de ser convencido...) que o Belenenses ultrapassou largamente essa dimensão bairrista com que, por vezes, alguns detractores ainda pensam que nos diminuem. Basta ver nos Blogues e na ML a participação de belenenses que são oriundos de diversas regiões do país ou se encontram espalhados pelos quatro cantos do mundo. Além disso, outros “contadores de histórias”, bem melhor do que eu, de que destaco (com a devida vénia) os meus colegas “blogueiros” Luís, Pedro e Henrique, nos têm dado conta, em belos artigos, da disseminação da alma belenense por esse país fora e além fronteiras. Por isso, a expressão “Clube de Bairro” quando aplicada ao Belenenses, em vez de me irritar, deixa-me cheio de orgulho. Vejamos porquê: em Portugal há dois tipos de clubes – os “pequenos” clubes que representam um bairro, uma cidade ou uma região e que, na sua maioria merecem o nosso respeito, e aqueles outros supostamente “grandes”, arrogantes e (por isso mesmo) bastante menos respeitáveis, que acham que têm toda a gente a seus pés e se consideram representativos deste país, do mundo e arredores. O Belenenses não pertence a nenhum destes tipos; o Belenenses é o único clube de bairro que é ao mesmo tempo um grande clube nacional. Tenho um enorme orgulho nisso!É claro que o bairro de “Belém” continua a ser indissociável do nome do clube. Nós somos “Os Belenenses”, não os ajudenses, os alcantarenses, os campolidenses ou os “outraqualquercoisenses” (que lindo neologismo (!), podem registar...).
O bairro e as suas gentes estiveram na génese do clube e a ligação entre os dois é incontornável, como vos tentei dar conta nas primeiras histórias desta série, passadas na minha infância. Nessa altura, como disse, o meu mundo quase se esgotava em Belém, mas quando comecei a transpor as “fronteiras” do bairro verifiquei que o Clube também as havia transposto, pelo que as noções de “clube de bairro” e “grande clube a nível nacional” sempre coexistiram, confundindo-se mesmo, na minha aprendizagem a ser do Belenenses. Como isto é uma história (embora até aqui não pareça), vou relatar alguns episódios pitorescos de que me recordo, que não são mais do que pequenos sinais, porém indeléveis, da universalidade do Belenenses.O primeiro passou-se ainda na minha infância. Havia em Belém um amigo do Senhor Abel José (ver histórias nos 1 e 2), o Senhor Nicolau (salvo erro sócio nº 14 do Belenenses), que tinha uma filha há alguns anos nos Estados Unidos para onde fora viver quando casou. Aquando de uma digressão da equipa de Futebol do Belenenses por terras dos “States”, a filha do Sr. Nicolau fez questão de receber na sua casa de New York toda a comitiva azul – jogadores, técnicos e dirigentes, amabilidade que encantou o pai, nos deixou a nós extasiados e foi agradecida pelo Clube com profundo reconhecimento.
Mais tarde, no fim da adolescência, nos primeiros anos de Universidade acontecia, por vezes, baldar-me a algumas aulas mais chatas e ir com alguns colegas ver um filme a um cinema perto do Técnico. Foi o que aconteceu uma bela tarde, como em muitas outras, aliás. Até aqui nada de novo. Nessa altura, ainda antes do 25 de Abril, antes de exibirem o filme (que já não me lembro qual era, mas também é completamente irrelevante para a história) passavam aqueles documentários chatíssimos, de propaganda do regime, com “altas figuras” a inaugurarem um “melhoramento” qualquer. O tema desse documentário era a visita de um ministro do governo de Salazar a uma terra piscatória. Durante o discurso da “alta individualidade”, que tentava convencer os pobres pescadores de quanto o governo estava preocupado em melhorar a sua situação, iam mostrando imagens da terrinha. A certa altura, aparece no ecrã, em zoom, a proa de um barco de pesca, que me fez gritar, acordando uma plateia quase adormecida: OLHA O EMBLEMA DO BELENENSES! Os meus colegas prometeram-me, ou melhor ameaçaram, que se eu voltasse a dar uma barraca daquelas, para a próxima vez ia ao cinema sozinho.Em quase todas as terras onde há belenenses (e creio que os haverá em todas) se passaram certamente muitos episódios curiosos, pelo que espero que quem tenha histórias destas as venha aqui contar. A que vou relatar a seguir não se passou comigo, mas com o Pedro Guedes da Silva, que ma contou quando começámos a pensar na ML, e a quem eu peço autorização para a incluir aqui, por a achar deliciosa. Toda a gente sabe a ligação que o Pedro tem ao Minho (linda terra!) e, em particular, a Caminha. Numa das suas visitas a Caminha o Pedro conheceu, para além do artesão dos cobres que tem sempre à porta da loja emblemas do Belenenses e objectos afins, uma velhinha que tinha um “contrato especial” com uma santinha duma capela que ela costumava visitar: sempre que o Belenenses ganhava, a velhinha dava à santa uma esmola de 100 escudos, com uma excepção – a esmola subia de 100 para 200 escudos quando a vitória era sobre o Benfica, o Sporting, o Porto ou... o Atlético!
Como não podia deixar de ser termino com Porto Covo, onde existe um pequeno clube filial do Belenenses, que a direcção do nosso Clube visitou recentemente, numa cerimónia com pouca pompa e reduzida circunstância, que aqui comentei há pouco tempo. Logo primeiro ano em que passámos férias em Porto Covo me apercebi da forte ligação das gentes da terra ao nosso Clube. Uma tarde, vinha da praia, e passo por um grupo de miúdos que estava a jogar à bola; quando um deles remata e o “guarda-redes” deixa passar a bola entre as duas pedras que estavam a fazer de baliza, o primeiro gritou: GOLO DO BELENENSES!
Mas a melhor passou-se com a minha mulher (que saudade, Rosa Maria, meu amor). Estávamos numa esplanada e acabou-se-me o tabaco. A Rosa Maria disse-me que lhe apetecia ir dar uma volta pelas lojas e quando voltasse me trazia um maço de tabaco. Assim fez. Quando chegou ao pé de mim, trazia o tabaco e um sorriso matreiro.─ Nem imaginas onde comprei este maço de tabaco.─ Não deve ter sido na farmácia; numa tasca, presumo.─ És muito engraçado, claro que foi numa tasca, a “tasca do primo Xico”.─ E o que é que isso tem de especial?─ Tem de especial que a tasca está completamente forrada de fotografias de equipas do Belenenses, de emblemas, galhardetes, taças e todo o género de bugigangas relacionadas com o teu clube.─ Ah sim?─ Pois, tens de lá ir. Só visto! Sabes o que é que o homenzinho que está ao balcão me respondeu quando eu lhe perguntei: “quem é que aqui é do Belenenses”?
─ Não, diz lá...
─ TODA A GENTE; MINHA SENHORA!
Saudações azuis.


1:21 da manhã


































