Só passa quem souber
Quase se poderia dizer que o peso histórico dos dois Clubes que hoje se defrontam é equiparável à importância das respectivas cidades-berço. Coimbra, capital que precedeu Lisboa, bastião moçárabe de Sisnando que se tornou "aquisição" preciosa do Condado Portucalense para a forja de um novo país (o nosso!). Tal como viria a ser Lisboa. Nesses tempos e em virtude dessa sucessão (como capital), de Coimbra a Lisboa chegaram entre outras coisas o tal sotaque, tornado mais ou menos "oficial". Isto embora ainda hoje se diga que é em Coimbra que "mora" o mais correcto modo de falar português.
Quanto ao futebol, a "Briosa" está umbilicalmente ligada à centenária Universidade, tendo surgido como organismo autónomo da Associação de Estudantes por volta de 1870. Essa relação tem sido algo intermitente, não sendo nenhum erro crasso considerar que a Académica é hoje mais um Clube de Coimbra do que um Clube dos estudantes, por regra oriundos de todas as partes do país. Isto embora a simpatia e o apoio dos estudantes se mantenham. Aliás a grande "simpatia" pela Académica a nível nacional muito deve precisamente ao facto de a cidade ter acolhido jovens de todas as partes de Portugal.
Esta "simpatia" porém, é um pouco como a "simpatia" pelo Belenenses. Muitos são os que escolhem os nossos clubes para 2ª lugar, ou mesmo para 1ª lugar a fim de esconder o verdadeiro afecto (há circunstâncias em que parece mal dizer que se é de um dos "três", acreditem). Aquando do recente regresso à 1ª Liga foram muitos benfiquistas, sportinguistas e portistas apoiar a "ressureição" da Briosa. Muito bonito o gesto, mas o Clube não existe só nessas ocasiões, nem suponho que seja para fazer parte da "decoração". Como compreendo os "estudantes" neste aspecto.
Por falar em estudantes, ou melhor, falando mesmo de estudos em Coimbra, lembro aqui que uma das míticas "Torres de Belém", Manuel Capela, resolveu trocar o Belenenses pela Briosa logo após se sagrar Campeão Nacional pelos azuis em 45/46, supostamente para que pudesse estudar por lá. Concerteza teria as suas razões (e o estudo é uma boa razão), mas a saída não agradou muito aos azuis. Valeu todo o seu contributo para o título e um "substituto" bem sério (José Sério!) para que este facto se esquecesse em boa medida. Já na Académica Capela voltou a brilhar, sendo assim um dos "mitos" do passado que os dois clubes partilham.
Centrando já as atenções nas passadas visitas do Belenenses a Coimbra, a história demonstra que o equilíbrio de resultados é notório. Em 51 encontros, só Antchouet fez pender (na época passada) a balança para o lado do Belenenses, "empurrando" - vindo de situação irregular - o 0-1 que deu a 20ª vitória do Belenenses, após 12 empates e 19 derrotas. Antchouet, por razões discipinares, já não poderá fazer o mesmo hoje.
O 1º Académica-Belenenses "oficial" foi na época de 1934/35, embora a competição em causa ainda tivesse um carácter algo experimental (a 1ª Liga, em simultâneo com o Campeonato de Portugal, competição por eliminatórias). Nas 4 edições dessa 1ª Liga (e portanto os 4 primeiros AAC-CFB) o Belenenses dominou completamente, com 4 vitórias, 15 golos marcados e apenas 6 sofridos. O primeiro terminou com goleada (0-5).
Curiosamente na primeira edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão (este já 100% oficial, em 1938/39) deu-se o primeiro resultado equilibrado: um empate a zero.
Curiosamente também coube à Académica vencer nessa mesma época a primeira edição da Taça de Portugal, competição que veio substituir o Campeonato de Portugal (competição que o Belenenses venceu por 3 vezes, convém não esquecer!).
Como já se disse, o balanço total dos AAC-CFB é de 20 vitórias para os azuis, 12 empates e 19 derrotas, com 79 golos "azuis" e 74 golos dos "estudantes". O Belenenses, sendo visitante, leva assim alguma vantagem. Aqui estão todos os resultados, onde assinalámos as tristes permanências no 2ª escalão, em maior número para a Académica:
34/35 - 0-5
35/36 - 1-2
36/37 - 3-5
37/38 - 2-3
38/39 - 0-0
39/40 - 2-2
40/41 - 3-2
41/42 - 5-2
42/43 - 2-4
43/44 - 1-3
44/45 - 0-3
45/46 - 1-3
46/47 - 2-0
47/48 - 0-4
48/49 - AAC na 2ª
49/50 - 3-0
50/51 - 2-0
51/52 - 2-1
52/53 - 2-5
53/54 - 0-1
54/55 - 2-2
55/56 - 0-5
56/57 - 1-1
57/58 - 2-2
58/59 - 1-2
59/60 - 0-5
60/61 - 0-1
61/62 - 2-1
62/63 - 1-2
63/64 - 1-0
64/65 - 4-1
65/66 - 0-1
66/67 - 6-0
67/68 - 3-1
68/69 - 2-0
69/70 - 3-0
70/71 - 0-0
71/72 - 2-0
73/74 - 0-0
74/75 - 2-1
75/76 - 0-2
76/77 - 3-1
77/78 - 0-0
78/79 - 3-1
79/80 - AAC na 2ª
80/81 - 0-2
81/82 - AAC na 2ª
82/83 - AAC e CFB na 2ª
83/84 - AAC e CFB na 2ª
84/85 - 0-0
85/86 - 0-0
86/87 - 3-1
87/88 - 0-0
88/89 - AAC na 2ª
89/90 - AAC na 2ª
90/91 - AAC na 2ª
91/92 - AAC e CFB na 2ª
92/93 - AAC na 2ª
93/94 - AAC na 2ª
94/95 - AAC na 2ª
95/96 - AAC na 2ª
96/97 - AAC na 2ª
97/98 - 0-0
98/99 - CFB na 2ª
99/00 - AAC na 2ª
00/01 - AAC na 2ª
01/02 - AAC na 2ª
02/03 - 2-1
03/04 - 0-1
Como se pode ver, em 2 das três "descidas" do Belenenses ocorreram 3 AAC-CFB, dos quais desconheço os resultados (ajuda?). Curiosamente em 1998/99 só o Belenenses não estava no 1ª escalão. Em 1999/2000, inversamente, subiu o Belenenses e desceu a Académica...
Quanto à equipa, podemos resumir o embate de hoje a dois problemas (partes de um só): estar sem o matador Antchouet e conseguir vencer fora, seja por 0-1 (como no ano passado), seja por 3-4 (resultado tão provável com Carvalhal... mas que ainda não aconteceu, e já vamos com dois 3-3, por exemplo).
Quanto ao árbitro, não serve este espaço para fazer a "cama" a nenhum dos profissionais "do apito", mas... sinceramente... nunca gostei do Sr. Bruno Paixão (menos ainda que do conterrâneo Lucílio, que nos calhou a semana passada). E não por achá-lo inimigo dos azuis. Só por... não ser bom (para não ofender). De facto num dos jogos por ele apitado observei o maior rácio de faltas assinaladas que não o eram versus faltas não assinaladas que o eram... enfim... acho que as duas equipas têm a temer.
Uma última palavra para os muitos e muitos "azulões" de Coimbra (incuindo núcleos das nossas claques - pelo menos um por lá existe), que concerteza vão estar lá a apoiar: um grande abraço!


1:01 a.m.


































