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A Primeira Vitória do Belenenses - Que é feito dos Vencedores e Vencidos



O assunto de hoje estava em mente já há algum tempo mas, como veremos, é também oportuno face ao actual momento do Clube.
Acontece que cumprem-se hoje 85 anos sobre a primeira vitória do Clube de Futebol "Os Belenenses". Pela primeira vez o fundador Artur José Pereira e os seus companheiros saborearam aquilo que tanto almejavam, com todo o seu empenho e as suas forças.

Nunca é demais relembrar, o sonho de Artur José Pereira passava por juntar sob um emblema de Belém todos os grandes jogadores de futebol que ali residiam. Já desde os primeiros anos de implantação do futebol como desporto popular que os jogadores da zona se destacavam como sendo os melhores (no caso de Artur, o melhor).
Porém as vozes contra o Belenenses eram muitas. Apesar de terem contribuído decisivamente para a supremacia de outros clubes como o Benfica (sobretudo) ou o Sporting, aos Belenenses não era reconhecido o direito de "desafiar" os clubes estabelecidos. Ainda por cima o potencial de adesão popular era enorme, algo sempre incómodo para quem já controlava e dominava os meandros.
Os dois primeiros jogos do Clube - na disputa da Taça Associação - traduziram-se em derrotas, mas não desanimaram os azuis. O Clube ainda tinha pouco mais que um mês de vida e o entrosamento da equipa era naturalmente insuficiente. Ainda sobre o primeiro jogo e apesar da derrota em campo, há que assinalar que no final foi obtida uma vitória "administrativa", pois o Setúbal havia utilizado um jogador mal inscrito. Dá a presença na final, com o Império (também uma derrota, a segunda).

Mas para todos os efeitos e porque uma vitória administrativa pouco sabe a vitória (como as vitórias morais!), o jogo a 11 de Janeiro de 1920 com o Club Internacional de Football para o início do Campeonato de Lisboa deve ser considerado como o primeiro triunfo. O resultado foi 2-3, no reduto do CIF. Estava lançado o caminho das vitórias!

Uma das reflexões que gostaria de fazer sobre este jogo prende-se com a posterior evolução dos adversários da altura.
O CIF havia sido fundado com o apoio da incontornável figura de Guilherme Pinto Basto, considerado como o principal responsável pela introdução do futebol em Portugal (para além de outros desportos que "trouxe" de Inglaterra). Contando com a presença de alguns ingleses, primeiros "mestres" do desporto, o CIF conseguiu ser o mais forte conjunto das primeiras competições. Venceu por exemplo o 5º Campeonato de Lisboa, na época de 1910/11.
Porém vários factores contribuíram para a "decadência" do CIF como potência do nosso futebol. A Iª Guerra Mundial foi um deles, afastando os inúmeros elementos da comunidade inglesa em Portugal para os esforços de guerra do seu país. Por outro lado clubes como o Benfica e o Sporting lideraram uma profunda alteração da filosofia do jogo. Onde antes havia essencialmente o gosto pela prática do desporto (principalmente advogado por clubes como o CIF), passou a existir o gosto pelas vitórias como fenómeno de atracção popular. Era o princípio do futebol-espectáculo.
A partir daí e como não poderia deixar de ser, surgiu também o futebol-negócio.
A grandeza dos clubes passou a medir-se pela adesão das massas, logo pelas receitas de bilheteira, logo pela semi-profissionalização dos jogadores para fazer face a todos esses requisitos. E foi aí que o CIF, ainda que gradualmente, decidiu afastar-se dessa ribalta para tomar o rumo que mantém até aos nossos dias. A profissionalização não era de todo compatível com os princípios que sempre regeram o clube. Assim sendo foi privilegiada a prática do desporto em si, nas mais diversas modalidades. Acima de tudo, um clube para os praticantes. O que eu chamaria um clube eclético "puro", sendo que a prática do futebol, naturalmente, ainda hoje é permitida (como desporto não é "pecado", ao contrário do que pensam alguns!). E o CIF, com as suas instalações no Restelo (o estádio Pinto Basto), ainda hoje se mantém como um dos principais clubes para a prática do desporto em Lisboa. Quanto às preferências futebolísiticas, os membros do CIF não se tornaram naturalmente indiferentes. Curiosamente a família Pinto Basto, desde então, tem aparecido frequentemente na vida... do Belenenses.

E o Belenenses? Como todos sabemos, continuou e subiu na hierarquia do futebol nacional, tal como desejavam os seus fundadores. Mas não deixou de acompanhar uma tendência que, em abono da verdade, todos os grandes clubes assumiram (na Península Ibérica), de manter um elevado número de outras modalidades. Não só para proporcionar a prática dos desportos, mas também devido a uma grande apetência por títulos e troféus. Durante largas décadas as vitórias noutras modalidades serviram para complementar os campeonatos conquistados no futebol; um grande clube definia-se como o que ganhava em tudo e mais alguma coisa. Alguns anos mais tarde, porém, as "secas" de títulos em futebol fizeram sacrificar o tal "ecletismo". Tem sido assim com o Sporting, com o Benfica, e em menor escala com o FCP. Até porque um Manchester United, um Arsenal, um Ajax ou um Inter de Milão não conhecem o que é esse tipo de "grandeza". É legítimo acabar com as modalidades amadoras desta maneira? Talvez não seja, mas não deixa de ser verdade que algumas dessas modalidades se mantiveram em boa parte graças à vontade de ganhar nas mesmas e não pelo simples desejo de proporcionar a sua prática. É o que eu chamaria de ecletismo "interesseiro".

Com a introdução de campeonatos profissionais em certas modalidades deu-se mais um passo. Surgiram assim modalidades amadoras... profissionais. Pois... quando o CIF teve de encarar o futebol profissional, "abandonou o barco", lembram-se? Deixou de ser eclético?
Quanto ao Belenenses, é facto provado que não se deu muito bem com a total profissionalização do futebol que surgiu nos anos 50/60. Eu diria até hoje. Em contrapartida parece dar-se bem nas competições profissionais de basquetebol e no futsal. Qual a diferença? Com excepção talvez do futsal e em meu entender, nenhum outro desporto atingiu um patamar - semelhante ao do futebol - que justificasse a sua profissionalização. Na sua sanha "interesseira" (de dominar toda e qualquer modalidade), os grandes clubes pouco ou nada fizeram para desenvolver e projectar verdadeiramente as modalidades "amadoras" (vejam-se os resultados internacionais). Uma vitória em basquete era servida como "aperitivo" para o jogo de futebol. Uma em andebol, como "digestivo". A única excepção, em termos históricos, talvez tenha sido o Hóquei em Patins.

Mas afinal o que é o ecletismo? É proporcionar a prática de diversas modalidades (como o CIF ou o Ginásio Clube Português)? É disputar títulos e campeonatos em diversas modalidades amadoras (competindo com o Direito ou o Agronomia no Rugby, o Algés ou o CNAD na Natação)? É disputar títulos e campeonatos noutras modalidades profissionais (competindo com o Queluz no Basquetebol, o Madeira SAD no Andebol ou o Sassoeiros no Futsal)? O Belenenses, pelo sim pelo não, "cobre" todas as variantes. Até porque, ao contrário dos outros grandes, as vitórias nas outras modalidades passaram a ser prémio de consolação. Ou até o objectivo principal.
Quem tem coragem de assumir de novo os desígnios dos fundadores? Quando é que desafiamos de novo o domínio de Benfica, Sporting e Porto no desporto-rei? O CIF permaneceu fiel aos seus princípios. O Belenenses... arranjou outros princípios pelo meio, que os primeiros deixaram de servir.
Não vejam isto como um ataque às outras modalidades, apesar de tudo defendo que devem ser mantidas sempre e quando tenham auto-suficiência financeira. Ou até proporcionem lucros ao Clube (via praticantes), claro. E mesmo nas modalidades onde o esforço financeiro não é "neutral", não é de todo justo não valorizar o magnífico desempenho dos "Guerreiros" ou dos "Conquistadores", por exemplo. O problema não está nos atletas nem nos seccionistas (salvo uma ou outra excepção noutra ocasião - como o basquete há mais anos). O problema está em quem insiste que essas modalidades sejam escapatórias para as frustrações do futebol. E que essas frustrações sejam aceites com resignação e conformismo. Lá está, porque o futebol está cheio de "mercenários"! E como tenho gostado de ver os "mercenários" do "Belenenses de Londres", o Chelsea (desculpa ó Pena). Será que o nosso futebol é uma causa perdida?

Para terminar gostaria de fazer o paralelo entre o espírito de há 85 anos com o momento que vivemos agora no futebol. Sonhariam (ou teriam esse pesadelo) os nossos fundadores, ao levarem de vencida o CIF, que o Belenenses pudesse no futuro ser suplantado por mais de uma dúzia de clubes (sim, estamos em 14º e o a época passada acabámos em 15º)? É certo que eles jogavam pelo seu bairro, pelas cores que escolheram e pelo gosto do desporto - hoje em dia isso já não é possível, mas o objectivo principal que escolheram deveria ter sido mantido. Assim fizeram os rivais que desafiámos, agora conhecidos por essa Europa fora. Será que o futebol profissional e de gestão profissionalizada não é para o Belenenses? Não, já não é desporto, não é coisa de cavalheiros, concerteza. Essa é a realidade que constato. Mas por muito que assim continuemos, não perco a esperança. Ainda vou ver um Belenenses como o de Artur José Pereira. Os melhores futebolistas no melhor clube de futebol. O Clube de Futebol "Os Belenenses".



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