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A porta dos Fundos



A questão dos Fundos de Investimento de jogadores de futebol parece chegar agora mais perto do Belenenses, conforme notícia recente do jornal O Jogo:

"A SAD Belenense está em conversações com os representantes do fundo de investimento First Portuguese, ligado ao Banco Espírito Santo, tendo em vista a concretização de uma operação tida pelos administradores azuis como vital para alterar o modelo de financiamento da estrutura responsável pelo futebol: a cedência parcial dos direitos desportivos de alguns atletas. Esta estratégia irá permitir antecipar parte dos fluxos financeiros obtidos com a venda dos seus passes e, sabe O JOGO, as conversações estendem-se ainda a outros fundos, que, todavia, só avançarão para propostas concretas no decorrer do Campeonato, devido à necessidade de avaliar com exactidão a qualidade e margem de rentabilização dos jogadores em equação. A prioridade deverá ir para atletas jovens e com vínculo de longa duração com os azuis, casos de Rolando ou Rúben Amorim."

Já aqui há uns anos na Mailing List, aquando do lançamento dos primeiros fundos (de Sporting e Boavista), muito se discutiu este assunto. Depois deu-se a contratação do Renato via Fundo estrangeiro, que até fez com que tivesse este artigo em "estaleiro" há meses...
A lógica é simples: os clubes cedem parte dos seus direitos desportivos ("passe"/cláusulas de rescisão) a um fundo, que obviamente paga pela aquisição desses mesmos direitos, antecipando assim a receita da venda desses mesmos direitos (para o Clube). Ou por outras palavras, mais correctas porventura, o fundo comparticipa na aquisição de jogadores, uma vez que o valor inicial de encaixe corresponde precisamente ao valor de aquisição. Do valor efectivo da venda, quando se concretizar, caberá ao clube a percentagem respectiva (o restante ao fundo).

Vantagens? A apetecível possibilidade de reduzir os custos de aquisição, sendo estes divididos com o Fundo. Desta forma torna-se também possível contratar e contar com os préstimos de jogadores de maior valor (que o clube por si só poderia não conseguir contratar).
Cautelas? É preciso ter em atenção que a existência destas parcerias e destes fundos só faz obviamente sentido para clubes que tenham capacidade comprovada de gerar valor, isto é, de conseguir a valorização de jogadores enquanto estão no clube. Assim sendo não faz sentido nem será aplicável a jogadores sem essa margem de progressão, quer seja porque a sua aquisição foi já de si bastante onerosa quer seja porque já não têm a idade recomendável... mas também não será fácil se o próprio clube não tiver os sucessos desportivos e a notoriedade associada que permitam as "vendas".

Para além disso os exemplos existentes provam que os fundos podem ser de facto muito interessantes, mas não devem ser considerados como um negócio de nome pomposo, sofisticado e de dinheiro fácil. Por outras palavras, a eventual existência de um fundo de jogadores do Belenenses não deve ser encarada como um luxo barato mas ostentável ("Vejam, também já temos uma coisa destas!"), mas sim como algo a ser bem estudado... e estruturado. O Belenenses das últimas décadas simplesmente não serve para este tipo de negócio (vendemos o César Peixoto?).

Ficando claro que a gestão e a qualidade do plantel terão de ser outros (quem sabe se já é, falta a prova maior: os resultados), outros cuidados são relevantes. Uma vez que o Fundo se torna detentor dos "passes", convém evitar que o dito (ou os investidores) venha a ter influências perniciosas na gestão do plantel, por exemplo forçando a vendas indesejadas ou até mesmo e apenas fomentando especulações que afectem o rendimento desportivo dos jogadores. Ao que sei, algumas das cláusulas dos contratos celebrados com os clubes procuram proteger o clube nestas situações. Veja-se por exemplo o comunicado da FC Porto, SAD, de finais do ano passado:

"A F.C.Porto, Futebol, SAD (FCPorto-SAD) vem pela presente comunicar que celebrou com a First Portuguese Football Players Fund, S.A.(Fundo), um contrato de associação de interesses económicos que consubstancia uma parceria estratégica de investimento em direitos desportivos e direitos de imagem de jogadores de futebol, resultando na partilha dos riscos inerentes às aquisições e transferências de jogadores e das mais valias obtidas na proporção do investimento realizado.
Neste acordo foram salvaguardados os interesses legítimos das partes, nomeadamente a perspectiva de valorização do investimento sem prejudicar o interesse desportivo da FCPorto-SAD. Dentre os mecanismos contratuais criados destacam-se:
• A determinação de um período de garantia durante o qual o jogador não pode ser transferido para um outro clube sem o acordo expresso da FCPorto-SAD e do Fundo, salvaguardando o retorno desportivo visado com a contratação e consequentemente a valorização desse activo;
• A determinação de um valor a partir do qual, findo o período de garantia, a FCPorto-SAD e o Fundo poderão negociar a cedência dos direitos desportivos do jogador, mantendo a FCPorto- SAD o direito de preferência na aquisição dos direitos do Fundo, o que concilia os interesses desportivos e financeiros das partes;
• A determinação de uma remuneração do investimento a receber pelo Fundo como contrapartida pela utilização desportiva do jogador pela FCPorto, SAD e que varia na relação inversa da maior projecção e valorização dos jogadores em função da competição europeia que estiverem a disputar;
Esta parceria assenta num conjunto de direitos relativos a percentagens que variam entre os 2,5% e os 25%, do valor de venda dos direitos desportivos de até 11 jogadores, estimando-se que o encaixe financeiro inicial para a FCPorto SAD ascenda até ao montante de 6.165.000 Euros."


A sociedade em causa, a First Portuguese, pertence ao Grupo Orey, tendo estabelecido uma parceria com o banco de investimento do Grupo Espírito Santo com vista à criação, colocação e gestão dos fundos de futebol, como já sucedeu nos casos existentes. Para além de ter sido pioneira na Europa no lançamento de fundos deste tipo, a FP também já se "internacionalizou", tendo estabelecido uma parceria para o lançamento de fundos sobre clubes da Bundesliga. Nota para a intenção da FP em "fundir" os 3 fundos actualmente existentes... sobre os quais aqui seguem umas análises "ligeiras":

Porto
À última data que obtive informação, o "portfolio" do FPFPF Porto estava dividido da seguinte forma:

Diego 15.01%
Ricardo Quaresma 9.77%
Carlos Alberto 4.47%
Pepe 3.62%
Seitaridis 4.28%
Benny McCarthy 3.98%
Ricardo Costa 3.98%
Bruno Moraes 2.61%
Hugo Almeida 4.35%
Paulo Machado 3.73%
Ivanildo 3.73%
Vieirinha 3.73%
Liquidez 36.75%

Como vimos acima, o Fundo pode deter uma percentagem entre 2.5% e 25% do valor dos direitos desportivos. Soube-se entretanto que o Porto vendeu Seitaridis por 10 Milhões de Euros, não sabendo ao certo quanto desse montante coube ao Porto ou ao Fundo (depende da percentagem do passe que detia o fundo), em princípio entre os 7.5 e os 9.75 Milhões de Euros.
É muito curioso constantar (não só na "carteira" do FCP, como veremos) que alguns dos jogadores em causa encontram-se emprestados a terceiros...
Mas voltando aos números, soube-se que o Porto "encaixou" cerca de 6 Milhões de Euros aquando da constituição do Fundo, tendo recebido mais 2.5 Milhões de Euros quando se "reforçou" a carteira do Fundo (com a entrada de Diego, Quaresma, Carlos Alberto, Pepe e Seitaridis). Ou seja, 8.5 Milhões de Euros que o Porto não teve de pagar do seu bolso.
Para além dessa verbas, claro, o Porto recebeu "alguns" milhões pela venda de jogadores que faziam parte da carteira do Fundo. Salvo erro as vendas de Deco, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e Pedro Mendes terão proporcionado mais de 40 Milhões de receita líquida ao FCP, enquanto o Fundo terá arrecadado valias estimadas em redor dos 9 Milhões de Euros. Como se isso não bastasse, Maniche, Costinha e Derlei foram vendidos por 28 Milhões de Euros. Compare-se tudo isto com os cerca de 6 Milhões de Euros dispendidos em Lucho e Lisandro...
Principais conclusões? Fundo ou não Fundo... tudo isto é o que dá ganhar a Liga dos Campeões... mas o passivo também não "aperta". Essa é a conclusão principal, que explica em boa medida o sucesso da parceria. No entanto não é de desprezar o papel do Fundo, certamente agradável para quem gere as finanças portistas.

Aqui ficam outros dados interessantes, que confirmam o perfil "ideal" de jogadores, isto é, os que têm maior margem de progressão e são mais "vendáveis"... no fundo, malta jovem e que marque golos, de preferência:

Distribuição Etária dos jogadores (FCP)
-21 anos: 60%
21-23 anos: 34%
+23 anos: 6%

Distribuição por Posição (FCP)
Defesa 19%
Médios 42%
Avançado 39%

Sporting
Quando ao Fundo do Sporting, depois das vendas de Hugo Viana (que pelos vistos voltou à base), Cristiano Ronaldo e Quaresma, as coisas "arrefeceram". Poder-se-á pensar nalguma "pressão" relacionada com os jogadores Liedson e Douala... no entanto a última discriminação do respectivo fundo era a seguinte:

Custódio 9.80%
Danny 1.70%
Paíto 6.10%
Paulo Sérgio 5.10%
Beto 8.50%
Niculae 21%
Valdir 5.80%
Yannick 5.90%
Saleiro 3.60%
Luís Filipe 0%
Liquidez 32.4%

Ao que parece Niculae saíu a custo zero, enquanto Danny saíu para o Dínamo por 2 Milhões de Euros... no entanto o Marítimo teve direito a quase metade deste último valor, pelo que o valor para Sporting e o Fundo não terá sido muito significativo.
Nota importante: vejam quem lá está também... Sim, o Paulo Sérgio... Tirai ilações...

Quanto ao "perfil" dos jogadores, de novo jovens e avançados (e emprestados!):

Distribuição Etária dos jogadores (SCP)
-21 anos: 30%
21-23 anos: 57%
+23 anos: 13%

Distribuição por Posição (SCP)
Defesa 30%
Médios 17%
Avançado 53%

Boavista
Talvez o caso mais próximo da nossa realidade no referente a fundos da FP, é também o que já viu melhores dias. Com efeito já há algum tempo que o clube do Bessa não consegue "vendas chorudas". Aqui fica a última "fotografia" do respectivo fundo:

Luiz Claudio 8.60%
Eder 9.50%
Cafu 11.80%
Jocivalter 6.50%
Yuri 9.20%
Helder Calvino 23%
Vitor Borges 18.70%
João Paulo 12.70%
Liquidez 0.0%

Sendo que Éder, por exemplo, saíu com acordo amigável...
Aqui fica o "perfil", sendo de destacar que neste caso os jogadores acima dos 23 anos de idade assumem o maior peso... isto diz muito:

Distribuição Etária dos jogadores (BFC)
-21 anos: 42%
21-23 anos: 9%
+23 anos: 49%

Distribuição por Posição (BFC)
Defesa 10%
Médios 29%
Avançado 61%

Em jeito de conclusão, não estamos a falar de nenhuma "mina". Tal como se descartam por vezes certas coisas por parecerem "modernices" ou "coisa de doutores", por outro lado não podemos cair em romantismos alegadamente suportados pelo argumento de que "os outros já têm".
Pessoalmente creio que as entidades agora apontadas como envolvidas dão-me algumas garantias de segurança. Mas isso não basta. Para além do que já dissémos, talvez falte dizer o mais importante, tendo em conta aquilo que pode determinar o sucesso da parceria... Sobre isso o jornal O Jogo dá uma boa pista, em princípio fundada em intenções do próprio clube. Ruben Amorim e Rolando (e eu diria Gonçalo Brandão e Carlos Alves) são de facto bons exemplos de investimentos (baixos, diga-se) que poderão um dia tornar-se em "activos" cobiçados. Ou seja, boa "matéria-prima". Mas tal parceria dificilmente se aguentará e será mutuamente proveitosa se o Belenenses não fôr mais além ainda, se não conseguir de vez provar... que a sua FORMAÇÃO existe! Provar que formamos CONTINUAMENTE excelentes e promissores jogadores, capazes de serem titulares em grandes clubes (como o NOSSO). Não se pense que sem os ovos... será algum fundo que fornece as omoletes...

Espero que com uma boa visão integral ("bola"+finanças) os responsáveis do nosso Belenenses consigam de vez agarrar o futuro, com competência e rigor, mas sobretudo com capacidade de antecipação, de antevisão. Chegar lá primeiro que os outros... e ser bem sucedidos. Até chegarmos aí ainda falta muito... porque agora ainda recuperamos de atrasos...
Ainda assim, com a confiança de que o clube tem gente capaz e conhecedora dos meandros a acompanhar o processo (sei que tem), acabo por receber aquela notícia com satisfação.

Mas hoje trouxe alguns dos exemplos mais "côr-de-rosa" (embora já nem tanto). Em breve será a vez do Luís Oliveira trazer outros casos, bem amargos para os clubes envolvidos. Porque o progresso nestas coisas é bom, mas o cuidado nunca, NUNCA é pouco.



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