Andebol: Opinião de Homero Serpa
Há dias, telefonou-me o meu sobrinho Hélder Costa, professor universitário, autor de livros sobre o Islão, belenense entusiasta, uma pessoa que gosta de desporto, acompanha-o regularmente sem aceitar que a devoção pelos espectáculos populares toque de duvidoso gosto os seus pergaminhos culturais e intelectuais.Quer dizer, é um indivíduo honesto na forma de ser e de pensar, dispensando chavões obsoletos. Telefonou-me, alvoroçado, para me falar do andebol do Belenenses, Céus, aquilo está mal, e só quem vê a equipa jogar cheia de genica e de talento compreende que tem direito a apoios que não lhe são prestados.
O desabafo do Hélder não foi uma opinião foi uma premonição confirmada a semana passada pelos acontecimentos lamentáveis que geraram efervescência e óbvia divisão entre a equipa e o seu treinador e os responsáveis pela governação do clube, incidentes que valorizaram com dignidade e respeito a vitória sobre o ABC.
Esta crónica acaba por vir na sequência da que escrevi recentemente sobre eclectismo e sobre o seu significado não apenas desportivamente, mas socialmente.Os dirigentes precisam de compreender o valor e a responsabilidade dos compromissos, se exigem da parte dirigida integral cumprimento das suas funções, devem assumir as suas obrigações pontual e honestamente, escusando-se a atitudes de prepotência óbvias nas pessoas sem argumentos válidos.
Este caso da revolta do treinador do Belenenses, saturado por uma série de incidentes ligados ao incumprimento dos pagamentos ao grupo de trabalho dos vencimentos, das subvenções, seja lá o que for, não se inscreve nos códigos de indisciplina, como um responsável pretende, ou então vivemos num país amordaçado, onde o trabalhador não tem direito à indignação e deve suportar, estoicamente, esclarecimentos elaborados na arrogância «O assunto está a resolver-se mas não há prazo».
Não há mas devia haver porque há uma parte que está dependente da outra sem possibilidades de se impor a não ser utilizando as armas dos trabalhadores e assumindo posições que naturalmente as populações não vêem com simpatia porque egoistamente pelo menos em Portugal os trabalhadores gostam que os apoiem nas suas reivindicações mas apoiar os companheiros em crise não é bem do seu feitio.
Uma questão de mentalidade que, no entanto, a dureza da vida parece estar a modificar. Claro que o procedimento dos dirigentes vem de longe, os contratos, até no futebol, estão sujeitos às flutuações de tesouraria, há dinheiro paga-se, não há, prémios, ordenados, etc. entram num processo mais ou menos longo de hibernação.
Isto sempre foi assim, moldando os profissionais a uma situação de conformismo desajustada da digna relação empresários-trabalhadores. Ou se preferirem, directores dos clubes-atletas profissionais, o que vem a dar no mesmo.
Os andebolistas do Belenenses e dezenas de praticantes de futebol de vários clubes são vítimas deste estado de coisas, eles e as famílias em dramas quotidianos provocados pelas gestões levianas ou simplesmente irrealistas porque, como dizia Otto Glória, quem não pode andar de jaquetão anda de paletó.
Nota: artigo publicado em "A Bola" e que vai de encontro ao que aqui tem sido escrito, utilizando um substantivo qualificativo mais adequado: arrogância.
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