Intervenção de Ricardo Schedel na AG da SAD - os números da SAD
Sob autorização expressa e escrita do Dr. Ricardo Schedel, ex-administrador da SAD do Belenenses no consulado de Cabral Ferreira, apresento agora o texto do discurso lavrado em acta na AG da SAD, o qual pela sua extensão, tomei a liberdade de colocar a negrito ou itálico os items que me parecem relevantes em cada parte da intervenção, esperando que ele Ricardo Schedel não me leve a mal. Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Geral,
Exmo. Senhor Fiscal Único
Exmo Conselho de Administração
Caros Accionistas,
Peço desculpa se for demorar um pouco, mas julgo que tenho esse direito. E se vou demorar um pouco é porque tenho de escalpelizar as Contas e o Relatório que estamos agora a apreciar. Peço, por isso, desde já a todos que me desculpem e ao Senhor Presidente da Mesa da Assembleia Geral que não me corte a palavra, mesmo que demore mais do que é habitual nestas situações. Infelizmente, vai ser preciso, porque tenho muito a dizer.
Comecemos então. No Relatório de Gestão é dito que a responsabilidade dos três primeiros trimestres é da anterior Administração. Mas eu diria, com mais exactidão, que toda a responsabilidade destas contas é da anterior Administração, incluindo o último trimestre que se limitou a dar seguimento ao que já estava traçado e planeado anteriormente, incluindo a venda dos jogadores Ruben Amorim e Rolando. Ou alguém acredita que não estava já tudo negociado, faltando apenas as assinaturas finais, e foi o Sr. Eng. Fernando Sequeira, mal acabado de aterrar, que foi a correr vender os jogadores ao Benfica e ao Porto? Assim, o que estamos a apreciar são na realidade as contas da anterior Administração. E é por isso que eu estou agora aqui, como se me coubesse a mim a apresentação das mesmas.
Ressalvo apenas do que disse acima três decisões, essas sim, da responsabilidade única e exclusiva da actual Administração e, curiosamente, todas elas tendentes a transformar um resultado amplamente positivo num resultado negativo, tal como nos é apresentado. Passo a enumerar:
1. Ver nota 44 do Anexo às contas. Vou ler: “O valor das receitas de jogos inclui a facturação do acordo existente entre a Belenenses SAD e o Clube de um valor mensal de 150.000 euros. A facturação foi de 1.500.000 euros na época 2007/2008 e de 1.800.000 euros na época 2006/2007.” Como se vê, em 2006/2007 foram facturados, como está certo, 12 meses; em 2007/2008 estranhamente não foram facturados os últimos dois meses. Só aqui, foram escamoteados aos Proveitos 300.000 euros. Note-se que é a própria Adminitração actual, responsável pela elaboração do Anexo às Contas, que afirma existir um acordo de 150.000 euros mensais. Então porque razão não cumpriu o que estava acordado, prejudicando em 300.000 euros a SAD de que é suposto zelar?

2. Ver nota 9.3 da Certificação Legal de Contas. Vou ler: “O Clube de Futebol “Os Belenenses” apresentou, no exercío anterior, junto do IAPMEI um pedido de procedimento extrajudicial de conciliação no qual foi incluída a dívida a “Os Belenenses”, SAD, em 30 de Abril de 2006, de 2.768.221,72 euros ao qual acrescem juros no montante de 242.219,40 euros. A actual Administração deliberou anular a cobrança destes juros”. Aqui foram escamoteados os juros correspondentes a este exercício, numa decisão que nem sei se é legal, ao contrariar o que está contratualizado ao abrigo do PEC. Veja-se, ainda, àcerca deste assunto, a nota 46 do Anexo às Contas, onde se refere que, para além de não terem sido contabilizados os juros deste exercício, como se disse acima, ainda foram anulados (contabilizados, portanto, em Custos Extraordinários) os juros lançados no exercício anterior, no valor de 57.475,81 euros. Há, pois, uma dupla penalização nestas contas (de valor superior a 100 mil euros). Recordo que a dívida do Clube à SAD foi incluída no PEC e calculados juros, para podermos ter, por outro lado, bonificação nos juros a cobrar pelo Estado. Esta anulação dos juros, decidida vá lá saber-se porque razão, é grave, lesiva dos interesses da SAD e pode causar-nos problemas no futuro. Note-se que foi um procedimento tão pouco claro, chamemos-lhe assim, que o Sr. Dr. Esteves Afonso se sentiu na obrigação de o enfatizar na sua Certificação das Contas.
3. Ver nota 9.2 da Certificação Legal de Contas. Vou ler: “ a Administração, por razões de prudência, entendeu provisionar 616.281,00 euros para fazer face a eventuais juros, multas e coimas relativos a impostos que não foram pagos em tempo oportuno e que foram objecto de procedimento extra judicial (PEC)”. Posso admitir a prudência, mas faço notar três coisas: em primeiro lugar, não existe, e já passaram dois anos, qualquer procedimento legal contra a SAD relativamente a estas eventuais multas e coimas (ver nota 54 do Anexo às Contas, onde estão indicados todos os processos contra a sociedade e onde não está, e já passaram dois anos, nada relativamente a coimas pelo atraso dos impostos incluídos no PEC; tenho, aliás, quase a certeza – mas ter-se-ia que verificar - que na altura se conseguiu o perdão das coimas); em segundo lugar, no final da nota 28 do Anexo às Contas pode ler-se, relativamente a Dívidas ao Estado em Mora, no valor de 99.070,24 euros: “os valores em mora à data de 30 de Junho de 2008 dizem respeito a juros e coimas não incluídos no PEC” – sinceramente, já me parece prudência a mais, ou seja, duplicação de prudência; em terceiro lugar, essa mesma prudência, estranhamente, não foi tida em conta no Orçamento apresentado – nele se pode ver na Rúbrica “Multas a Entidades Fiscais” o valor de 198 mil euros efectivamente dispendido na época 2007/2008 e zero orçamentado para a época 2008/2009. Enfim, prudências e coerências que me escapam...
E, assim, se transforma um resultado amplamente positivo (mais de 700 mil euros) num resultado negativo, sendo os dois primeiros casos especialmente graves. Quanto à prudência vamos esquecê-la para já. Mas considerando apenas os dois primeiros casos, se se tivessem facturado os dois meses que o não foram (e sabe-se lá porquê) e contabilizados, como deveriam ser, os juros que foram anulados e não tivessem sido anulados os correctamente lançados no exercício passado (e sabe-se lá, também, porquê) o resultado das contas deste exercício teria sido positivo, como devia ser. E eu pergunto: com que legitimidade é que a actual Administração tomou, pouco tempo depois de eleita, duas decisões altamente lesivas à sociedade que era suposto administrar e, consequentemente, zelar pelos seus interesses? Com que direito defraudaram a sociedade em mais de 400 mil euros, fazendo tábua rasa de uma facturação, que, por ser constante já há longos anos, tinha ganho decerto a força de contrato, e perdoado de “motu proprio” juros que estavam contratualizados com o aval de uma entidade estatal? E será legal anular os juros lançados no exercício anterior, incluídos, portanto, em contas já aprovadas por esta Assembleia de accionistas? Como accionista desta SAD eu sinto-me prejudicado em mais de 400 mil euros. Eu e julgo que todos vós. Estas não são meras decisões de gestão corrente, estas são decisões que ultrapassam as competências de qualquer Conselho de Administração e têm, portanto, de ser apresentadas aos accionistas da sociedade e aprovadas por estes. E não me venham dizer que, sendo o Clube de Futebol “Os Belenenses” sócio maioritário da SAD, as decisões estavam aprovadas à partida, pois, sendo o Clube parte interessada, não deveria votar, como é evidente.

Mas ainda quanto à Provisão – faço notar aos senhores Accionistas que as multas, coimas e juros que com ela se pretendem acautelar não foram consequência de atrasos no pagamento de impostos da responsabilidade da Administração da qual fiz parte. Com efeito, os impostos atrasados incluídos no PEC referem-se à actividade da Administração que nos precedeu, pelo que o exercício que agora terminou, deu lucro naquilo a que estrictamente lhe diz respeito, mesmo que fossem legítimas – e não são - as manobras da facturação não efectuada ao Clube e da anulação dos juros ao mesmo. Isso mesmo, ou seja, que a dita provisão se referia a atrasos no pagamento de Impostos devidos na época 2005/2006 e que não deveria estar incluída nos custos de 2007/2008, deveria, ao menos, ter sido frisado no Relatório de Gestão, mas estranhamente (ou talvez não) não o foi. Aliás, se se considerava útil criar esta Provisão, o procedimento correcto seria levá-la directamente à Situação Líquida, a Resultados Transitados, e nunca aos Resultados deste exercício. Afirmo com toda a clareza, e está aqui o Sr. Dr. Esteves Afonso que não me deixará mentir: essa provisão, a ser legítima, nunca poderia ser levada às contas deste exercício.
E, assim, como disse, se fabrica um resultado à medida. Tudo menos dar lucro. Então, depois das “cobras e lagartos” que disseram sobre a anterior administração da SAD, não é que as contas de que ela é 99% responsável dão lucro e ainda por cima chorudo? Não podia ser. E estou mesmo a ver aquelas cabecinhas a trabalhar para que isso não acontecesse. Em primeiro lugar, quando se começou a tornar evidente que haveria lucro (isto, porque não havia maneira de empurrar as vendas do R. Amorim e do Rolando para a próxima época) vem a decisão de não facturar os dois últimos meses ao Clube. Mas, infelizmente, ainda não chega, e então vá de anular os juros. Fecham-se finalmente as contas e, azar dos azares, ainda assim continua a dar lucro. E vem então a ideia luminosa da prudência e vá de criar uma provisão, esperando que ninguém note que a mesma não tem nada a ver com este exercício, e ainda com um outro fito para o futuro: lá para o fim do exercício de 2008/2009 chegava-se, como quem não quer a coisa, à conclusão que a Provisão não era necessária, anulava-se a mesma e estavam assim, desde logo, grantidos 616 mil euros de proveitos para esse exercício à custa do prejuízo do exercício anterior – dois coelhos com uma cajadada. Enfim, espertezas.... E, pronto, finalmente estava feito o que se queria desde o início: que estas contas não dessem lucro.
Tudo isto, afinal, se insere na política seguida desde a primeira hora pela actual Administração, que começou ainda antes da tomada de posse, com a célebre “gestão danosa”, continuou na AG do Clube para aprovação do empréstimo e culminou com a entrevista dada pelo Sr. Eng. Fernando Sequeira à Bola e que saíu no dia a seguir ao seu pedido de demissão. Tudo no Relatório de Gestão e na apresentação do Orçamento, desde o princípio ao fim, foi feito sem qualquer vergonha com um único intuito: mostrar que a anterior Administração foi um desastre, dando, ainda por cima, prejuízo. Note-se, por exemplo, e é só um pequenino exemplo, a habilidade saloia no Orçamento de apresentar 1 milhão e 400 mil euros como pagamento de Dívidas de Exercícios Anteriores (para dar a ideia de que, coitados, iriam ter de pagar as dívidas dos péssimos administradores anteriores) e “chutar” para a rúbrica “Outros” a verba de 1 milhão 781 mil euros (que foi decerto o mesmo pelo menos em parte, no exercício anterior). E não estarão todos os exercícios a pagar parte das dívidas contraídas em exercícios anteriores? Acontece no Belenenses, como acontece em qualquer empresa. Assim como, ao contrário, se cobram também valores de Clientes referentes a proveitos de exercícios anteriores. E a conta de Clientes até tinha em 30 de Junho de 2008 um valor significativo (3 milhões e 300 mil euros, gerados no exercício de 2007/2008, mas que serão recebidos apenas no exercício de 2008/2009 – mas sobre isso nem uma palavra...).
Concretizando ainda mais:
a) começa logo na apresentação do Orçamento onde aparece mais uma vez o tal orçamento dos 6,6 milhões de euros e a famosa derrapagem. Mas não é explicado, e o Sr. Eng. Fernando Sequeira sabia-o porque eu já lhe tinha dito, que o referido orçamento é aquele que se manda para a Liga, sobre o qual são prestadas garantias, e que convem, por isso, ser o mais baixo possível. Aliás, gostava de ver o Orçamento que a actual Administração mandou para a Liga, em comparação com aquele que nos é apresentado hoje. O tal dos 6,6 milhões não era certamente o orçamento aprovado para a SAD como constantemente é afirmado. E eu pergunto, como já perguntei na reunião do Conselho Geral em que primeiro se falou nisso: aprovado? Mas aprovado por quem? Alguma vez algum orçamento para a época de 2007/2008 foi presente aos srs. Accionistas para aprovação? Eu tenho muitos defeitos, mas não sou propriamente atrasado mental, nem estou para já senil. Como é que eu ia fazer um orçamento de 6,6 milhões quando sabia perfeitamente que nos anos anteriores tinham sido gastos anualmente mais de 7 milhões e 500 mil euros e que neste exercício iriam existir a acrescer, por exemplo, as comissões a pagar aos intermediários nas vendas dos nossos jogadores? Acontece que, curiosamente, eu tinha oferecido a minha colaboração antes das eleições à Direcção que aí vinha e o Miguel Ferreira tinha-a dado concretamente, como já por mais de uma vez foi público. E no dia a seguir às eleições eu reafirmei a minha disposição para colaborar no que fosse preciso, tendo inclusivamente dado ao Sr. Eng. Fernando Sequeira o meu cartão pessoal, para um contacto mais directo. E a quem é que foi pedido o orçamento da SAD? A algum de nós? Não! Foi à Noémia, que, sem saber para onde se virar, coitada, lá desencantou o tal orçamento que tinha ido para a Liga. Reafirmo que expliquei isto ao Sr. Eng. Fernando Sequeira em reunião do Conselho Geral. Mas lá temos outra vez os malvados administradores anteriores que fazem derrapar orçamentos.
b) Vem depois, no Relatório de Gestão, a afirmação catastrofista de que havia uma profunda exaustão de Tesouraria que iria trazer como consequência (e passo a ler): ”Salários em atraso (como já era evidente), Impostos em atraso (não se cumprindo os acordos do PEC), Acordos com credores a não serem honrados.” Desminto totalmente estas afirmações, e desminto sem o medo de ser contrariado, pois é fácil prová-lo: não existiam salários em atraso, nem dívidas ao PEC em 31 de Março (aliás como se comprova pela nota 28 do Anexo às Contas). Mas agora, senhores Accionistas, peço o favor de olharem bem para os números do Passivo fornecidos no Relatório de Gestão. Vejam os números referentes a Fornecedores, Estado e Outros Credores (que são os que realmente interessam, que são os que são exigíveis) e comparem 31 de Março com 30 de Junho de 2008 – são todos mais baixos em 31 de Março!!! E reparem na rúbrica Estado em 30 de Junho de 2007 e em 31 de Março de 2008 – reparem que abatemos mais de 500.000 euros na dívida ao Estado nos 9 meses que estivemos à frente dos destinos da SAD. Mesmo incluindo as Provisões para Riscos e Encarcos (as tais da prudência...), e já veremos o quanto são ilegítimas as ditas Provisões apresentadas na coluna referente a 31 de Março, reduzimos substancialmente o Passivo nesse período (e isto sem recebermos um tostão do Clube e sem termos ainda as verbas das vendas do Ruben Amorim e do Rolando, como aconteceu em Junho de 2008) – foi essa a nossa a má gestão...
c) Culmina com a afirmação e passo a ler novamente: “Recorde-se que à data da posse desta Administração não havia qualquer disponibilidade em caixa e bancos, nem quaisquer verbas a receber até ao final da época”. Isto é a mentira levada ao grau supremo. Olhe-se para o Activo Circulante nas contas apresentadas pela mesma Administração que faz esta afirmação. Qual é o valor que está lá em 31 de Março na rúbrica Depósitos Bancários e Caixa? Eu leio 627.547 euros, curiosamente quase a mesma verba que está em 30 de Junho. No entanto esta mentira tem sido repetida vezes sem conta. Mas há mais. É ainda afirmado que não existiam quaisquer verbas a receber até final da época. Ai não? E então as verbas referentes às vendas do Ruben Amorim e do Rolando? Como se pode ver, em 30 de Junho de 2008 está em Clientes o montante de 3 milhões e 300 mil euros a receber, que incluem decerto essas verbas. O Rubem Amorim foi pago em letras e o Rolando em dinheiro. Bastava descontar essas letras e receber o dinheiro do Porto (arranjando uma forma de eles anteciparem) e não eram sequer necessários os dois milhões de euros que o Clube transferiu para a SAD. Nós sabíamos perfeitamente deste estado de coisas, sabíamos perfeitamente que era facilmente concretizável a tesouraria da SAD, recorrendo unicamente às verbas disponibilizáveis pela mesma. Eu sabia, desde sempre, que este exercício ia dar lucro. Várias vezes tranquilizei o meu colega Miguel Ferreira, e vários sócios que se me dirigiram. Sempre lhes disse: “Vamos esperar pelo fecho de contas, e depois vocês vão ver”. Porque ao contrário do que sempre foi propalado, ou seja a nossa irresponsabilidade, esta época foi programada e planeada com cabeça, tronco e membros desde o seu início.
Apontei acima as afirmações mais gritantes, mas todo o Relatório de Gestão e também a apresentação do Orçamento são uma tentativa despudorada de denegrir a anterior Administração. Despudorada e pouco inteligente, porque depois vêm os números desmentir tudo o que foi dito. Veja-se a coluna, inédita em relatórios de contas da SAD, referente a 31 de Março, ali posta a martelo para mostrar os “méritos” da actual admistração que “veio salvar a pátria”, delapidada pelos horríveis gestores anteriores. Como se qualquer pessoa, mesmo muito pouco conhecedora e distraída, não soubesse que as contas de uma SAD se fazem de época a época (e não a meio ou a três quartos da mesma) e que, se os custos são em geral regulares mês a mês, os proveitos são escalonados muito irregularmente ao longo do ano, como é o caso evidente da venda de jogadores e da facturação à Sport TV? O que significam os resultados em 31 de Março de 2008, ainda por cima inflaccionados pelas tais provisões da prudência? Nada! O que interessam são as contas finais.
Mas falemos sobre as tais provisões – que eu saiba a anterior Administração não tinha constituído, por achar desnecessárias, quaisquer provisões até 31 de Março. Desafio quem quer que seja a apresentar uma acta do Conselho de Administração ou mesmo uma mera informação à empresa de contabilidade onde se encontre a decisão de criar uma provisão, seja de que natureza for. Então, com que direito são lançados retroactivamente valores em Provisões, unicamente para desvirtuar as contas em 31 de Março e apresentar um resultado altamente negativo? Isto é um abuso, é uma manobra que me recuso classificar. Sempre a mesma esperteza das provisões para falsear e piorar os resultados da Administração anterior... Mas há mais. Reparem, Srs. Accionistas, que em 31 de Março foram constituídas abusivamente Provisões de 775 mil 757 euros, sendo 616 mil 281 euros a tal que aparece no final do exercício e sendo, portanto, constituída mais uma outra de 159 mil 476 euros, que não se sabe o que é. E que pelos vistos foi anulada pouco depois, pois em Junho (3 meses depois) já lá não está. Isto é a desfacatez levada ao seu grau supremo. É uma manobra de tal forma inqualificável, que nem a vou adjectivar por respeito aos Srs. Accionistas. Já agora, se era para a anular logo de seguida, porque é que não lançaram então uma de um milhão ou de dois milhões de euros? O resultado seria dessa forma ainda mais negativo. Falando agora a sério, porque de brincadeiras, como sejam criar provisões para as anular logo de seguida, julgo que já estamos todos fartos, temos, portanto, que, sem essas Provisões abusivas, o resultado em Março de 2008 era apenas de menos 152 mil euros, se é que isso quer dizer alguma coisa...
Há ainda outras coisas que não são explicitamente referidas no Relatório de Contas, mas que vêm nas entrelinhas e que têm sido constantemente repetidas, apenas com o propósito de difamar a anterior Administração e pintar negro o quadro.
Vejamos:
a) Insinua-se mais uma vez o caso dos muitos jogadores em fim de contrato, como se isso por si só fosse um grande crime. Mas o que não é dito é que, tirando os casos já conhecidos do R. Amorim, do Rolando e do Rodrigo Alvim, todos os outros estavam em Março dispostos a renovar. Como sabíamos que só havia uma lista às eleições, que para mais tinha afirmado à partida querer baixar o orçamento, e como o Miguel Ferreira tinha facultado todos os dossiers ao futuro presidente, eu e ele resolvemos por uma questão de lealdade não avançar com nenhuma renovação, pois havia tempo e mais do que tempo para renovar com quem se quisesse e não renovar com quem não se quisesse. Fomos leais com a nova direcção não lhe impingindo jogadores que poderia não querer, e qual a paga? Sermos apontados como uns bandidos.
b) Depois o sr. Eng. Fernando Sequeira afirma repetidamente que teria sido enganado, pois ter-lhe-iam dito que haveria 3 milhões de euros na SAD (que pelos vistos se tinham evaporado no ar, ou ido parar aos bolsos dos desonestos administradores da SAD). Quem é que lhe falou nos 3 milhões? Fui eu? Foi o Miguel Ferreira, com quem esteve todos os dias durante um mês antes das eleições? Nós não fomos com certeza, mas a afirmação tem ficado sempre no ar. Se tinha dúvidas e queria saber, porque é que não nos perguntou?
c) Há ainda a afirmação de que se tinham antecipado verbas da PPTV. Mas não foi nunca dito que essas verbas se referiam apenas e só ao aumento de contrato entretanto negociado por nós. Ou seja, na próxima época a SAD vai receber exactamente o mesmo que já recebia em anos anteriores. E lá está no Orçamento o recebimento de 1 milhão 470 mil euros, referente a Direitos Televisivos, que não me deixa mentir e que confirma o que estou agora a afirmar. Mas o que é que tem transparecido? Que a anterior Administração hipotecou a SAD, recebendo antecipadamente a totalidade das verbas da televisão.
d) Fala-se ainda do passivo da SAD, mas não se diz, se não “en passant”, que a maior parte desse passivo é referente ao PEC, a médio e longo prazo, portanto. E ainda que o passivo diminuiu de 2007 para Março de 2008. Se somarmos o passivo a curto prazo (Dívidas a Instituições de Crédito, Fornecedores e Outros Credores) isso dá menos de 2 milhões de euros, cobertos e mais do que cobertos pelo que temos a receber de Clientes. Ou seja, o que temos a receber de Clientes dá para pagar todas as Dívidas a Terceiros de curto prazo e ainda sobra mais de um milhão de euros para financiar a nova época.
Note-se que apenas apontei as afirmações mais gritantes no texto que acompanha o Orçamento. Salto neste momento por cima, quer de outras mais discretas, chamemos-lhes assim, mas não menos falsas, quer dos números do próprio Orçamento, ali postos no que se refere ao exercício anterior apenas e sempre com o mesmo intuito, porque do Orçamento se falará mais tarde. Faço notar somente, e por curiosidade, esta incongruência hilariante, que só prova a forma no mínimo descuidada como foi elaborado o Orçamento: em “Custos com o Pessoal” está relativamente ao exercício anterior a verba de 6 milhões 280 mil euros, enquanto que nas contas constam apenas 5 milhões 819 mil euros. Afinal, em que é que ficamos? Julgo não ser preciso dar mais exemplos de como se procurou sempre desde a primeira hora denegrir a imagem da anterior Administração da SAD, e agora também no Relatório de Gestão e na apresentação do Orçamento. Quis-se dar sempre a imagem de que o Belenenses estava numa difícil situação financeira por causa da horrível SAD que esbanjava o dinheiro do Clube. Veja-se o que foi dito na AG do Clube para aprovação do empréstimo. O Duarte Ferreira até falou nessa altura numa SAD rica e num Clube pobre, querendo com isto dizer que a SAD teria esbanjado o dinheiro do Clube. Tivemos, antes pelo contrário, uma SAD que trabalhou, que fez pela sua vida, que soube angariar receitas, e um Clube que não cumpriu a sua obrigação se não no fim do exercício, quando nós já lá não estavamos. O Clube não foi a formiga e a SAD a cigarra, foi precisamente o contrário. Todos sabem que está consagrado em todos os últimos orçamentos do Clube, aprovados ou chumbados, a transferência de uma verba para a SAD. E se os últimos orçamentos foram chumbados, então há que concretizar em duodécimos o último orçamento aprovado, como todos sabem também. E no último orçamento aprovado lá estão os 1,8 milhões de euros a transferir para a SAD, o que dá 150 mil euros/mês em duodécimos. Quando eu entrei no Clube, o orçamento para esse ano até previa a entrega de 2,5 milhões de euros. Eu baixei essa verba para 1,8 milhões de euros, por me parecer mais fácil de o Clube cumprir. E enquanto estive no Clube, o Clube cumpriu, mesmo antes de eu entrar para a SAD. Acontece que, quando deixei de ser Vice-Presidente do Clube, as transferências simplesmente acabaram. É evidente que eu na SAD estava à espera de receber esse valor. E porque não? Sempre tinha sido transferido. Desafio todos vós a imaginar como seria numa empresa, qualquer que ela fosse, onde não entrassem 1,8 milhões que estavam programados. Se fosse, por exemplo, um dinheiro a vir da Câmara ou de outra entidade qualquer estavamos todos agora aqui aos gritos de indignação. Ora a anterior Administração da SAD nunca teve, no último exercício, a sorte de poder contar com qualquer verba vinda do Clube. Pelas minhas contas, para além de pagar ao Clube as verbas referentes á utilização de espaço, ainda lhe emprestou cerca de 60 mil euros. E não queriam que a tesouraria da SAD estivesse exaurida... Mas até mostrei acima que, com os recebimentos das vendas do Ruben Amorim e do Rolando, a SAD teria sido capaz de fazer face aos seus compromissos, sem precisar do Clube para nada.
Por isso acho ridícula e sem vergonha a afirmação no Relatório de Contas e passo a ler: “Para obviar a este estado de coisas, foi necessário recorrer ao apoio do Clube que transferiu para esta SAD cerca de dois milhões de euros”. Como se isso fosse uma grande coisa, como se fosse o pobre Clube a ter de vir em socorro da horrível SAD esbanjadora dos dinheiros do Belenenses. Como se isso não fosse a sua estrita obrigação e não estivesse contratualizado e orçamentado. E já mostrei, repito, que nem era preciso nada disso. Mas ainda bem que o Clube transferiu finalmente dinheiro para a SAD; assim baixou-se um pouco a enorme dívida de um para com a outra.
E não me venham dizer que o Clube não tem nada que transferir dinheiro para a SAD. O Clube fica com toda a quotização, normal e suplementar, com as receitas da publicidade no estádio (publicidade que não está lá com certeza por causa do atletismo), e com o resultado do Bingo (que nos foi concedido também para o fomento do futebol). E a SAD ainda paga ao Clube o aluguer das suas instalações. Então o Clube não deve dar nada à SAD? O que deveria ter sido tranferido ao longo da época e não se transferiu (nem um tostão durante os nove meses em que estivemos à frente da SAD) era mais do que justificado.
Mas a má gestão foi da SAD. Foi isso que sempre tem sido dito, especialmente na AG do empréstimo. Não admira que, devido ao clima criado, houvesse até alguém que andou, depois disso, em telefonemas para sócios do Clube tentando angariar apoios para apresentar uma queixa crime por gestão danosa contra os antigos administradores da SAD. O facto é que a anterior Administração em 2 anos conseguiu, com a sua gestão danosa, apenas isto:
ganhar o caso Mateus, contra tudo e contra todos,
ir à final da Taça, o que não acontecia há anos,
classificar a equipa para a UEFA, o que também não acontecia há anos,
continuar no ano seguinte com uma classificação razoável, que seria de novo o 5º ou o 6º lugar se não nos tirassem 6 pontos (e teríamos ido de novo à UEFA),
vender jogadores todos os anos, o que não acontecia há muito,
baixar o Passivo a curto prazo para valores sem relevância, totalmente cobertos por aquilo que se temos a receber,
dar lucro dois anos seguidos depois de anos a fio de prejuízos.
Quando digo dar lucro dois anos seguidos, é porque considero que este exercício deu lucro, não fossem as manobras que denunciei acima para que assim não acontecesse. E sem recorrer ao aumento de facturação ao Clube, que era a estratégia anterior para que os resultados não fossem ainda mais negativos (agora, infelizmente, foi feito ao contrário).
Vou só relembrar os resultados dos anos anteriores à nossa entrada para a SAD:
Época 2002/2003 – prejuízo de 1.120 mil euros
Época 2003/2004 – prejuízo de 615 mil euros
Época 2004/2005 – prejuízo de 531 mil euros
Época 2005/2006 – prejuízo de 1.033 mil euros
E não esqueçamos o tal aumento de facturação ao Clube no final dos exercícios, se não os prejuízos ainda seriam maiores. Nesses anos ninguém falou em gestão danosa, nem se falou em petições para fazer participações criminais contra os administradores de então da SAD. Agora, com dois anos seguidos de lucro, sim. No mínimo curioso. Ou não terá sido porque na AG do empréstimo se pintou deliberada e falsamente um quadro negro, sem o menor respeito pela honra de outras pessoas? E se tem vindo a repetir despudorada e continuadamente esse mesmo procedimento? O que corre entre os sócios do Clube é que a SAD tem um buraco monumental. Fazer ver a esses sócios que assim não é vai ser uma tarefa decerto difícil e está, pois, irremediavelmente manchada a honra de pessoas que enquanto estiveram à frente da SAD tiveram os melhores resultados desde sempre, conseguiram baixar o Passivo de forma drástica e alcançaram resultados desportivos como há muito não acontecia. Este procedimento continuado da actual Administração, e que culminou de uma forma ainda mais grave com estas contas (e as manobras que relatei para que não apresentasse lucro) e com este Relatório de Gestão (e todas as mentiras que propala), é ignóbil e dever-nos-á merecer o maior repúdio.
E não me venham falar nas Receitas Extraordinárias, como se isso fosse um crime. E dizer. “sim, está bem, a SAD deu lucro, mas isso só aconteceu por causa da venda de jogadores”. Eu pergunto: comprar e vender jogadores não será uma função corrente de qualquer SAD? Estamos sempre a falar da formação e não serei eu a falar contra. Mas para que queremos nós a formação? Para formar jogadores que depois possamos vender. Então qual será a diferença de formar jogadores e vendê-los e ir buscar portugueses ou brasileiros baratos ou de borla, valorizá-los e vendê-los também? O dinheiro encaixado não é o mesmo? As mais valias da venda de jogadores só tinham aparecido nas contas anteriores em receitas extraordinárias porque não há um POC para as SAD’s e tinhamos de seguir o POC normal. Mas não serão essas receitas decorrentes da actividade normal de qualquer SAD? Isso mesmo, curiosamente, foi agora considerado por quem elaborou as presentes contas (ver nota 2 do Anexo às Contas), dando razão ao que eu digo.
Comprar, valorizar e vender com mais-valias jogadores há de ser sempre uma actividade normal em qualquer SAD. E a anterior Administração consegui-o com sucesso. Era uma política calculada. Admito perfeitamente que possam existir outras. Mas não me venham é denegrir as receitas extraordinárias. O Benfica, o Sporting e o Porto não equilibram regularmente as suas contas com a venda de jogadores? O Sporting não faz mesmo disso a sua filosofia de vida? O Braga não subiu como clube com a venda de jogadores seus? Se isso é considerado perfeitamente normal e até louvável nesses clubes, porque há de ser considerado um crime e ser apontado a dedo no Belenenses? Qualquer clube no mundo compra e vende jogadores. Se o fizer com lucro, como o Belenenses, isso não é considerado boa gestão? Mas feito pela anterior Administração é considerado gestão danosa... Curioso, curiosíssimo mesmo, é o Orçamento apresentado considerar também uma verba de 3 milhões e 400 mil euros referente a venda de jogadores. Afinal, não é assim tão mau...
O que é inegável é que a anterior Administração tinha deixado a nossa equipa mais forte e respeitada. Ainda há uns meses a actual Administração se ufanou de ter conseguido melhorar substancialmente o patrocínio da Vitória Seguros. Mas não lhe terá passado pela cabeça que só se conseguiu isso devido às boas classificações da equipa e à visibilidade que esta alcançou? Difícil foi ter-se conseguido o que se conseguiu da Vitória quando estávamos com um pé na 2ª. Divisão. E, para que não fiquem dúvidas, deixem-me dizer-lhes que a renegociação com a Vitória, por valores mais altos, também já tinha sido iniciada pela anterior Administração...
Para finalizar, o problema dos custos que tanto incomodam tanta gente e que dão azo à célebre derrapagem e outras expressões no género. Mas eu pergunto: qual o problema de aumentar os custos, se se aumentam as receitas e se, ainda por cima, se sabe à partida que as receitas vão cobrir esses custos? Grave é aumentar os custos e diminuir ou manter as receitas. Aumentar o orçamento da SAD só pode ser benéfico – é sinónimo de que se tem à partida uma equipa em princípio mais competitiva e dá força e visibilidade ao Clube. Há é que contrabalançar esse aumento com mais receitas. E foi isso que a gestão anterior da SAD conseguiu nos dois anos que esteve à frente dos destinos da mesma. Volto a repetir: era um risco calculado. Mas existia uma enorme empatia Administração/Equipa Técnica e uma maneira coerente de trabalhar em conjunto que permitia de uma forma continuada valorizar os nossos activos e alcançar boas classificações. A continuar essa política as coisas só podiam melhorar e podíamos encarar então consistentemente os dois grandes problemas do futebol no Belenenses: aumentar as assistências e alargar a nossa base de associados. Quis-se, no entanto, destruir tudo isso com uma sanha pouco menos do que assassina... E os resultados, infelizmente, começam a estar à vista. A isso, sim, é que eu chamaria sem medo gestão danosa!
É, pois, com enorme orgulho que estou a falar das contas que agora nos foram apresentadas. Não por mim, nem sequer pelo Miguel Ferreira, que bem o merece no entanto, mas por uma pessoa que foi constantemente enxovalhada e que já morreu. E nem sequer houve a dignidade de mencionar o Cabral Ferreira no Relatório de Gestão. É o mínimo que qualquer empresa de vão de escada faz. Então o Presidente do Conselho de Administração de uma sociedade morre em plenas funções, e não há sequer uma palavrinha no Relatório de Gestão sobre esse facto, de especial relevo na vida da sociedade? Felizmente que as contas que estamos agora a apreciar e os resultados alcançados também a nível desportivo vêm por si só repôr a justiça. Venha quem vier denegrir o que foi feito: o trabalho estava cá e os resultados também. E isso, custe a quem custar, doa a quem doer, deve-se ao Cabral Ferreira, a quem presto a minha homenagem.
À nova Administração que virá só posso dizer: “venham e façam melhor”.
À actual administração da SAD não digo nada. Acho que ficou aqui cabalmente demonstrada a maneira ignóbil como tentou manipular as contas. Por isso só pode merecer o nosso desprezo. Pois, quer queiram, quer não, com manobras ou sem manobras, a verdade, a única verdade, é que este exercício deu mais de 700 mil euros de lucro. E que o Passivo baixou drasticamente e está coberto por aquilo que temos a receber.
Há ainda uma coisa que gostaria de ressaltar e que ainda mais força vem dar a tudo o que disse acima. A certa altura do Relatório de Gestão lê-se: “Por isso, as contas apresentadas são o registo da contabilidade da SAD, após a introdução dos ajustamentos resultantes da auditoria efectuada pela Deloitte”. Sempre me quiseram meter medo com o “papão” da auditoria e eu sempre encolhi os ombros de quem nada teme, por nada dever. Sempre disse que, sendo as contas elaboradas por uma empresa idónea e revistas por uma pessoa com a competência, honestidade e independência do Dr. Esteves Afonso (que não se coibiu de apresentar reservas às contas do ano anterior, com as quais concordei e que me apressei a rectificar no início do exercício seguinte), não haveria nada que a auditoria fosse encontrar de menos transparente ou regular. E foi, patentemente, o que aconteceu, pois se assim não fosse, teriam sido indicadas decerto no Anexo às Contas as rectificações que a Deloitte achasse por bem fazer. E não há nada!
Termino, assim, com o meu agradecimento e reconhecimento muito sentido e muito sincero ao Sr. Dr. Esteves Afonso, um agradecimento também ao meu colega Miguel Ferreira, que me acompanhou numa altura particularmente difícil na vida da nossa SAD, e que não houve o cuidado de convidar, como mereceria, a estar hoje aqui connosco, e uma saudação muito especial e com muitas saudades a esse grande Homem e brilhante Presidente do Conselho de Administração desta SAD, que não está aqui pelos motivos que todos conhecemos. Para ti, Cabral Ferreira, são as minhas últimas palavras, palavras de agradecimento, de saudade e de profunda admiração.
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