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Azul em tom de amor



Notas Prévias:
Tinha este texto guardado no meu computador caseiro e entendi dever publicá-lo, embora desconhecendo o respectivo autor, que não sou eu, mas inclino-me para que tenha sido enviado pela Marina Tavares Dias. Se não tiver sido, ela que me desculpe.

Depois, e já aqui escrevi sobre isso, o ciclismo dos meus tempos de menino e moço, lá pela minha terra, em Vendas Novas, era apostas sobre apostas sobre quem ganhava a meta-volante ou a etapa, conforme os casos, se o ciclista do Belenenses, se os do Sporting ou do Benfica, havendo ainda os Ginásio de Tavira, Louletano, Sangalhos e Alpiarça.

Outros tempos.


A notícia que, um dia destes, li na última página de «A Bola» sobre o regresso do Belenenses ao ciclismo, tantos anos após o seu desaparecimento da estrada, surpreendeu-me.

Não fiquei assombrado, nem perturbado, nem incrédulo, porque já tenho um largo tempo de convivência com o desporto para não me deixar influenciar por qualquer decisão mesmo quando me possam sugerir utopia ou extravagância.

E como me considero fiel à latitudinária ideia de que no desporto português tudo pode acontecer, acho intrigante mas simultaneamente excitante a reconciliação do ciclismo com um clube que já teve tradições na modalidade.

Nunca foi uma casa de grandes campeões, mas nem só de estrelas vive o céu que nos cobre.

Creio que o clube tem apenas um título no seu historial, o de João Francisco no Porto-Lisboa de 1933.

Mas foi representado por ciclistas de valor, citando de memória Cabrita Mealha, António Bartolomeu, Aniceto Bruno, Joaquim Manique, Militão Leal, Arnaldo Gonçalves, Artur Maia, Leontino Marques, o próprio Alfredo Trindade, que vestiu de azul no ocaso da carreira, e, lá mais para o pioneirismo, de Faraó Rodrigues e Francisco Matos, componentes do pequeno grupo que correu, em 1927, a I Volta a Portugal ganha por António Augusto, do Carcavelos, e num passado ainda à vista do célebre Zé da Burra, autor de uma proeza singular pelas condições inéditas que enfrentou na sua longa corrida pelo país.

O Belenenses não é, portanto, um clube novo no ciclismo, será, no entanto, uma associação de presença irregular nas estradas portuguesas, afinal de contas, igual na pusilanimidade, até a equipas mais emblemáticas, casos do Benfica, Sporting e FC Porto, especialmente dos dois primeiros esquecidos da popularidade que o ciclismo lhes deu, com indiscutíveis reflexos na expansão dos emblemas e no aumento das respectivas populações associativas.

José Maria Nicolau e Alfredo Trindade foram pólos de atracção, a sua rivalidade empolada pelas camisolas que vestiam insinuaram num povo, ávido de ases do desporto, ávido de ídolos, clubismos ignescentes e duradouros.

O Belenenses não terá tantas razões para se sentir obrigado à publicidade que o seu símbolo espalhou por aí fora, mas ninguém pode dizer que os corredores de azul equipados passaram indiferentemente pelas competições nacionais, não deixando nas populações ao menos um rasto de simpatia.

Não censuro, naturalmente, o regresso do Belenenses ao ciclismo que valoriza o mundo ecléctico do clube construído por uma epopeia de invulgar querer iniciada, escassos meses depois da sua fundação, com o atletismo e a natação. No entanto, uma coisa é fazer ressuscitar uma tradição e outra mantêla viva e de saúde no seio do grupo e do ciclismo nacional.

Belenenses é etnónimo responsável e como não possui a magnitude das agremiações interpretadas como grandes, não deve deixar-se resvalar pelo crivo do ridículo.

Entretanto, sabe-se quanto custa, por época, uma equipa de ciclismo e como, por norma, um clube dela pode tirar proveito, nunca, obviamente, a partir de receitas, que não existem directamente, ninguém pode cobrar bilhete aos espectadores postados na estrada, nas chegadas, nas partidas, pelo que um grupo só pode sobreviver à custa da publicidade e do mecenato.

Os belenenses já estudaram com certeza tudo isto.

Mas, se acham que o plano é concrescível, então devem avançar sem delíquios de consciência, partindo, até, do princípio de que as camisolas azuis, correndo pelo país fora, darão prestígio e publicidade ao clube.

Vem a propósito de prestígio falar de uma singela reunião promovida pelo núcleo dos antigos nadadores do Belenenses, que tanto se empenharam na construção da piscina e sentem como ninguém os êxitos dos jovens representantes da natação do clube, no restaurante do Vilas, a meio da tarde de quarta-feira.

O Humberto, o Fernando, o José de Freitas materializaram a iniciativa de homenagear as campeonas nacionais Ana Rita, Patrícia e Hariet e os seus treinadores, Elena Kraeva e Viatcheslav Poleacov, que ao Restelo trouxeram a técnica, o estilo e o profissionalismo russo.

A homenagem, quase íntima, teve a sensibilidade do agradecimento que os antigos nadadores sentem pelas moças a quem ofereceram troféus comemorativos dos seus êxitos, houve pequenos discursos que misturaram a nostalgia com a presente realidade, o Vilas e a D. Milu ofereceram o lanche, adoçando ainda mais a confraternização. Das janelas da casa via-se o complexo de piscinas do Belenenses que, durante dezenas de anos, foi uma miragem azul.

Há formas muito belas de clubismo.

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